Em quanto á malagueta dubia é produzida por um certo numero de especies bem distinctas, como são o Amomum exscapum Sims., A. longiscapum[26] Hooker fil., A. latifolium Afzelius, A. Danielli[[54]] Hooker fil., A. palustre Afzelius, A. Pereirianum Daniell.

A exploração botanica da Africa intertropical está demasiado imperfeita, para que se possa fixar com rigor, ou mesmo com uma tal ou qual segurança, a demarcação das areas habitadas pelas differentes especies vegetaes. Os limites, que vamos indicar, devem pois tomar-se apenas como uma grosseira aproximação, sujeita a muitas correcções.

Pelo lado do norte a malagueta começa a encontrar-se desde o cabo Verde, ou talvez mesmo desde o Senegal. Parece porém ser bastante rara na região proxima ao mar, que corre da foz d'este rio á do Gambia. A que por ahi se vende é trazida do interior pelos mandingas, e provém do alto Senegal, alto Gambia, e das terras de Bambará. Podemos pois fixar como limite norte, aproximadamente, o parallelo de 15° latitude norte.

Caminhando para o sul encontra-se na Guiné portugueza porém em pequena quantidade. É mais frequente a partir do rio de Nuno Tristão, e muito abundante desde a Serra Leôa até ao cabo das Palmas. Predomina sempre nos terrenos baixos, humidos e fundos aonde chega a invadir as culturas sendo difficil de destruir. Do cabo das Palmas para este abunda em toda a zona da costa da Mina, costa de Benin, e delta do Niger até ao rio dos Camarões, encontrando-se tambem na ilha de Fernão do Pó. Existe egualmente no Gabão, e em geral em toda a costa que corre norte sul do rio dos Camarões até ao Zaire. Começa porém a ser mais rara, ou pelo menos a não dar logar a tão activo commercio. Estende-se a habitação da planta além do Zaire. Temos n'esta parte uma informação importante, dada pelo dr. Welwitsch, o qual nas suas explorações botanicas, não encontrou a planta espontanea, mas foi informado de que existe nas florestas do interior do Congo[[55]]. Comparando esta informação com o itinerario seguido por Welwitsch, póde fixar-se como limite aproximado sul o parallelo de 7° latitude sul. Vê-se pois que a planta se encontra localisada em uma região bastante vasta, que se estende ao norte e ao sul do equador, dilatando-se mais para o norte[[56]].

O limite oriental é muito mais vago, senão absolutamente desconhecido. As vastas regiões do Sudan tem sido atravessadas por alguns, poucos, exploradores[27] europeus, mas não estudadas botanicamente. Sabemos apenas, que aos mercados da costa vem malagueta das terras de Bambará e talvez das de Massina no alto Niger, que por outro lado as caravanas ainda hoje levam a Murzuk, no Fezzan, alguma malagueta do Sudan[[57]], mas ignoramos a região onde é produzida. Attendendo ás condições bastante uniformes de temperatura e humidade que reinam no Sudan, é natural suppor que alguns Amoma da costa occidental, se não todos, se estendam em uma vasta habitação até á região dos lagos, ou mesmo de costa a costa. Na Abyssinia, no paiz dos Gallas, e mesmo na costa oriental existem especies de Amomum, mas a sua identidade com as da costa occidental, com quanto admittida por alguns auctores[[58]], não está completamente demonstrada. É forçoso confessar que o conhecimento d'estas plantas é demasiado imperfeito, e a exploração d'estas regiões demasiado incompleta para que desde já se possam formular quaesquer conclusões seguras.

IV

Do commercio da malagueta, e da parte da costa a que se deu este nome

Na ultima metade do XV seculo, e no principio do seguinte, o commercio da malagueta, como o de todos os outros productos da costa occidental da Africa, foi exclusivamente feito pelos portuguezes. O caracter, que distingue os descobrimentos dos nossos, e os separa de muitas tentativas arrojadas, mas desconnexas, de outros navegadores, é a energia e a persistencia com que, não só proseguem avançando para o desconhecido, mas vão consolidando, por meio de novas e repetidas expedições, o seu dominio nas longinquas praias recentemente visitadas. Inspiradas pelo genio ardente do infante D. Henrique, as navegações portuguezas algum tanto affrouxam no tempo de D. Affonso V, occupado pelas dissenções intestinas do reino, pelos cuidados das expedições á Africa mediterranica, e pela lucta em que a defesa dos direitos da excellente Senhora o havia envolvido; tomam porém novo impulso sob a mão energica e inflexivel de D. João II, para chegarem no reinado de D. Manuel, a essa época de maravilhosa espansão, em que as naus portuguezas sulcavam todos os mares.[28] Não se satisfazem os nossos em descobrir novas terras, mas procuram firmar por toda a parte o dominio portuguez, levantam o castello de Arguim, edificam a fortaleza de S. Jorge da Mina, e cobrem a costa oriental da Africa e a costa do Malabar de fortes e feitorias. Estabelecem-se assim relações seguidas, e um activissimo commercio com a Africa e com o Oriente, no qual as especiarias representavam, como é geralmente sabido, o mais importante papel.

Hoje, que algumas especiarias tem caído em completo desuso e abandono, e outras se encontram tão vulgares e correntes no commercio, surprehende-nos a singular estima, em que foram tidas nos tempos antigos, durante toda a edade média, e ainda no primeiro periodo do renascimento. É certo, porém, que as difficeis, e muitas vezes interrompidas relações com o extremo Oriente, e as longas e demoradas viagens pela Persia, ou pelo Mar Vermelho[[59]], tornaram estes productos vegetaes raros e custosos, e por isso mesmo procurados como objecto de luxo excepcional. As duvidas sobre a sua patria, o mysterio que envolvia a sua origem, e fazia considerar alguns como provenientes do parayso terrestre[[60]], ainda mais contribuiram para que se encarecessem as suas[29] excellencias como medicamentos, e como adubos. Quantidades pequenas d'estas substancias, e que hoje teriamos por insignificantes, se offereciam como valiosos presentes a papas e imperadores, ou se enumeravam cuidadosamente entre as riquezas accumuladas em seus thesouros[[61]].

O desejo de chegar ás terras aonde cresciam tão ricos e estimados productos, e de, pela communicação directa, arrancar das mãos dos venezianos o monopolio do trato commercial com o Oriente, foi sem duvida uma das causas principaes, que incitaram portuguezes e hespanhoes nas suas navegações.