«Desengane-se quem quizer, cada um bicudo que chega ao Brazil ou é um refinado vadio troca tintas, ou um calceta fugido do Limoeiro, ou das enxovias do Carmo. A canalha bicudal tem mais medo das solitarias do Carmo do que do diabo.

«Nós queremos estrangeiros civilisados, laboriosos e honestos, emigrados amigos do trabalho; o que não podemos supportar são portugallegos que veem aos centos, todos ladrões, infames, desatinados, salteadores, assassinos e moedeiros falsos, etc. etc.

«Contra estes ladrões todo o rigor das nossas leis e a maldição do povo brazileiro caia sobre elles.

«Longe, bem longe de nós e de tudo quanto é honesto e civilisado está esta tróça estupida de gallegos. Deixem-nos, vão para o inferno, para a costa d'Africa, para as zonas torridas e humidas de Pedro Botelho, comtudo que favoreçam-nos com a sua ausencia.

«O que querem estes malvados e faccinoras gallegos n'uma terra, onde ninguem os póde vêr?!...»[[53]]

O que deixamos trascripto, como se pode deprehender, refere-se a portuguezes que sahiam do Brazil, contra quem, ainda que sem motivo, podiam allegar represalias; mas o que vamos transcrever é uma amostra das recepções que n'aquelle paiz hospitaleiro costumam fazer aos colonos que pela primeira vez pisam o solo brazileiro, contra quem parece que não devia haver razão de queixa:

«Pilha de ladrões e velhacos.—A bordo da barca portugueza Camponeza, vinda da terrinha e aqui ancorada no dia 8 do corrente, chegaram 26 badamecos gallegos e velhacos, sujos e réos de policia. Elles que de lá vem é porque fizeram alguma... Ou fugindo do serviço das armas, deixando o pae e a mãe compromettidos, ou arrombando as prisões do Limoeiro e as enxovias do Carmo, onde é a vivenda continua da matúla indigna e safada.

«Pelo ról dos passageiros não consta que viesse um só, entre tantos ladrões, um habil pintor, um perito dentista, um intelligente agricultor, um laborioso agronomo, um engenheiro, emfim, um homem de educação e de bons instinctos. Veiu sim, uma matúla estupida de ladrões, assassinos, vagabundos, jogadores, não bastando ainda os muitos que por aqui estão!

«E não se envergonha a estupida colonia portugueza de apresentar em uma terra estranha patricios seus, filhos do decantado Portugal, como os que vieram agora na barca Camponeza e outros muitos que constantemente vêem baldeados nos porões dos navios!

«E ainda dizem que os portuguezes são nossos civilisadores...