«Coisa admiravel! o presidente apenas ouviu as palavras—casa ingleza—deu um pulo na cadeira, tocou com estrondo a campainha, ao som da qual acudiu o continuo, que recebeu ordem para chamar o tal official maior. O presidente chegou mesmo a levantar-se da sua cadeira, e dirigindo-se para a janella, fez d'ali signal ao empregado superior.
«Na volta o presidente fez ver a este empregado, que o caso que acabava de dar-se era estranhavel, por quanto ainda ha pouco tempo lhe tinha mostrado um officio confidencial do ministerio competente, no qual se recommendava a maior attenção com todos os negocios trocados entre as differentes repartições do estado e as altas potencias, como a Inglaterra, a França, os Estados Unidos, etc!... O alto funccionario respondeu simplesmente, que o caixeiro pretendente era portuguez, e por isso pensava que a casa commercial era tambem portugueza!!»
Este facto parece incrivel. Recusa-se o nosso espirito a acceital-o. Mas devemos confessar que elle desgraçadamente está d'accordo com outros de que não é licito duvidar, e que se não são tão explicitos, revelam a mesma tendencia. Devendo os portuguezes ser no Brazil os primeiros, vê-se que são os ultimos. E não lh'o merecem decerto, nem pelo passado nem pelo presente. Em toda a parte da monarchia portugueza, onde o brazileiro se apresenta é recebido com mais que deferencia, ás vezes até com favor.
Temos pena de que o sr. Pércheiro dominado por uma paixão, cujo fundamento ignoramos, fosse tantas vezes d'uma critica tão irritada, que obrigue o animo imparcial a dar ás suas palavras, quando as não comprovam testemunhos insuspeitos, certo desconto. A boa critica não póde aceitar como proposições geraes o que deve apenas admittir-se como limitada excepção, quando existe. E seria mesmo mais vantajoso para o credito que deve merecer o seu livro, que moderasse um pouco mais a sua linguagem. Os vicios, os abusos não dão direito a quem os censura de ser... quando menos exaggerados. E perdoe-nos o sr. Pércheiro, cremos que em alguma parte o foi. A verdade não é decerto aquella. Não citamos senão um logar em que esta reflexão nos accudiu, mas podiamos citar outros. É a paginas 181.
Afora isto, era util que o livro do sr. Pércheiro se vulgarisasse, que a população illudida, que deserta para as praias de Santa Cruz, tivesse conhecimento verdadeiro do que por lá se passa, que, quanto a nós, é este o melhor meio d'ella crear mais amor á terra em que nasceu, e não a abandonar tão desassisadamente, arrastada pela sêde insoffrida de uma opulencia rapidamente adquirida.
(Districto de Aveiro, de 5 de julho.)
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Sr. redactor do «Districto de Aveiro».—Só hoje me veiu parar ás mãos o n.º 360 do seu importantissimo jornal, no qual sob o titulo—Nova publicação, vem publicado um extenso artigo de appreciação ao meu pobre trabalho—Questões do Pará, appreciação que não devo deixar passar em claro sem os devidos reparos, embora humildes.
Perdoe-me v. ex.ª que com a minha modestia, que o auctor do referido artigo não quiz ver na carta—prologo feito ao meu livro, lhe diga, que tão abalisado critico me faz algumas injustiças, contradizendo-se mais de uma vez na sua appreciação, por fórma a querer sustentar ao mesmo tempo—o preto e o branco—dos escriptores sem consciencia.
A circumstancia de ter sido tal appreciação publicada em jornal portuguez e de não trazer o nome do seu auctor, me inhibe de collocal-a ao lado dos escriptos parciaes, que sobre o meu insignificante trabalho, hão-de mais tarde apparecer na imprensa brazileira.