Se isso é realmente offensa, preferimos ficar offendidos, a parecer-nos com elles, offendendo-os pela mesma fórma, e com egual justiça. Lisongeia-nos mais o papel de victimas. É questão de gosto talvez.

Podiamos assegurar ao sr. Pércheiro que nos foi desagradavel a certeza de o havermos molestado sem querer. É porém sestro nosso e de muita gente. Ainda ha pouco o nosso antigo amigo, o sr. Teixeira de Vasconcellos, n'um caso identico, se queixava de que todos os auctores lhe pediam que fosse franco a respeito do que escreviam, e todos se julgavam depois offendidos quando elle tomava o pedido ao pé da letra. Acontece sempre isto.

Por isso nós costumamos, e cada vez estamos mais firmes n'este proposito—deixar á redacção d'outros jornaes a noticia das novas publicações com aquellas palavras sacramentaes de louvor, que afinal nada significam. Com isso ninguem se offende. Alguns acham pouco o incenso. Mas d'ordinario todos gostam.

Resta dizer ao sr Pércheiro que o redactor principal do Districto de Aveiro, não costuma assignar os artigos d'esta secção. Esta pratica, que é de muitos outros jornaes do paiz, equivale a uma assignatura.

E faremos uma rectificação, visto ser necessaria. Nós não escrevemos: «é nas classes inferiores que a desconsideração mais se revela;» escrevemos: «é nas classes superiores que a desconsideração mais se revela.» No entretanto foi como o sr. Pércheiro cita que o periodo sahiu á luz. Travessuras dos compositores e descuidos da revisão, a que estamos habituados. Nem d'ordinario já rectificamos. Deixamos esse cuidado ao bom senso de quem lê.

Districto de Aveiro

*
* *

Sr. redactor.—Antes de entrar na apreciação da resposta com que v. exª me honrou em o n.º 366 do seu enteressantissimo jornal, permitta que lhe agradeça o favor da publicação da minha carta, que motivou esta resposta. Dito isto, peço egual favor para a inserção d'esta. Perdoe-me v. ex.ª o abuso. É que eu com a alludida resposta, e outras que se lhe possam seguir, ficarei vencido, mas nunca convencido: tal é o meu obscurantismo a respeito das coisas do Brazil. Para demonstrar a v. ex.ª que não fico convencido, é que escrevo mais estas desconcertadas linhas. Creia que, se não fôra esta razão, deporia a minha penna de chumbo, que jámais poderá vencer a de ouro, tão habilmente dirigida por mão de um digno contendedor como v. ex.ª

N'essa resposta a que eu alludo, e á qual vou fazer algumas considerações, suppõe v. ex.ª que me escandalizam as opiniões contrarias ao meu livro e que me agradam as palavras sacramentaes dos jornalistas sem consciencia. Permitta que lhe diga, que, ainda mais uma vez tornou a ser injusto comigo, injustiça que se estendeu a litteratos mui distinctos, que se serviram apreciar o meu modesto trabalho.

Eu não me escandaliso com a opinião de criticos tão abalisados como v. ex.ª; poderei escandalisar-me com as injustiças e apontar as contradicções. E v. ex.ª foi injusto comigo e contradisse-se em alguns pontos da sua apreciação ao meu livro. Desculpe a teimosia. Eu tambem sou peccador como v. ex.ª Acredite-me com franqueza, que não dispenso as palavras sacramentaes de que falla, nem tão pouco as de censura com que me distingiu, visto que, para umas e outras eu já estava prevenido, ainda antes do meu trabalho ter saido a lume. Antes do apparecimento do artigo de v. ex.ª já eu tinha recebido os jornaes do Pará, onde, a par das injustiças, vi publicados alguns artigos bastante insultuosos. Já vê v. exª que eu esperava flores e espinhos ao mesmo tempo. Mas eu sou tão differente dos outros homens (e sinto que v. ex.ª me não tivesse ainda comprehendido), que julgo importarem em pouco as palmas e as pateadas a quem tem a consciencia tranquilla. E a minha, mercê do Altissimo, não o póde estar mais. Comtudo agradeço umas e outras.