E depois d'este processo que, na opinião do sr. Gonçalves Vianna—honra a erudição portugueza,—ataca as fontes genealogicas d'onde Diogo do Couto e Gaspar Fructuoso acceitaram «como ouro de lei o peschesbeque de uma lenda estupida tecida pelo vulgo ignorante, e posta a correr mundo graças á inepcia dos editores dos escriptos legados por esse grande e infortunado poeta que foi Bernardim Ribeiro!» (Ib. p. 11.) E mais adiante, volta a repetir: «A uma lenda estupida deveu esse rebento inglorio de John Falconet a celebridade que durante seculos usufruiu, em prejuizo do renome litterario do verdadeiro Crisfal, o doce, o inimitavel e inegualado Bernardim Ribeiro, etc.» (p. 185.) Mas, como se póde chamar estupida a lenda genealogica se os nomes contidos na Ecloga de Crisfal condizem com os seus parentes taes como o de Pantaleão Dias de Landim seu avô, e a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o sr. Jordão de Freitas?
Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados com os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.º 180 da Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão; tambem o Arcediago do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues, examinou no Porto um manuscripto analogo ao das edições de 1559, em que vinham a Menina e Moça, duas eclogas de Bernardim Ribeiro—«e até se acham no fim algumas poesias de Christovão Falcão, do que se faz menção no mesmo logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, Dic. Bibliog.)
Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos como os encontraram? Quando o sr. Delfim Guimarães trabalhava para destruir uma miragem de seculos, foi communicar ao sr. dr. Alfredo da Cunha «a descoberta que tinha feito e que, sem falsa modestia, reputava de alta importancia para a historia das lettras portuguezas.» Era uma Noticia litteraria de sensação, o dr. Alfredo da Cunha deu alentos á grande descoberta de que a figura do poeta Christovam Falcão «pertence exclusivamente ao dominio da lenda, por isso que tal poeta só existiu na imaginação d'aquelles que viram n'um anagrama cabalistico de Bernardim Ribeiro a encarnação de outra individualidade.»
No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas, proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia. A verdadeira descoberta pertence ao sr. Braancamp Freire determinando a epoca em que esteve em Flandres João Brandão Sanches, e quando elle morreu, dando nos assim a data em que existiram os amores de sua filha unica D. Maria Brandão, a do Crisfal, que plausivelmente se fixam em 1530. O documento de 1527 referindo-se a Christovam Falcão, com a tença de môço fidalgo, leva a deduzir que nascera em 1512. Ha portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos, corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim. Os logares communs a Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já era admirado, cujos versos, Camões, na sua Carta de Africa, intercalava na sua prosa.»
Os processos... scientíficos
do snr. dr. Theóphilo Braga
A todos os pontos tocados no aranzel do snr. dr. Theóphilo Braga, darei resposta em livro, e d'essa tarefa procurarei desempenhar-me em curto praso, com a largueza e documentação que o assunto requer, o que não é compativel com o espaço que a trabalhos d'esta espécie pode dispensar um jornal da índole da Lucta.
Por hoje, e certo da amabilidade com que me distingue o meu prezado amigo snr. dr. Brito Camacho, desejo apenas salientar, muito ao de leve, algumas inexactidões flagrantes do artigo Movimento litterario, do snr. dr. Theóphilo Braga, que bem demonstram a correcção dos processos... scientíficos do professor do Curso Superior de Letras.
Referindo-se ao ultimo tomo do Archivo Historico, a revista dirigida pela superior competência do snr. Braamcamp Freire, em que este escritor encetou a publicação da sua monografia sobre Maria Brandão, diz o snr. dr. Th. Braga que a monografia «ficou publicada», procurando assim dar a entender que o estudo do snr. Braamcamp Freire está ultimado, quando é facto que ainda lhe falta o capítulo em especial referente a Maria Brandão, destinado por certo a ser o mais curioso, pela luz que ha de fazer jorrar sobre a figura da suposta amada do poeta Crisfal.
Mas ao snr. dr. Theóphilo Braga conveio torcer a verdade, para que com maior presteza os leitores ingénuos acreditassem nos seguintes períodos ardilosamente engendrados:
«O sr. Anselmo Braancamp Freire escreve em nota: «Sei que se trata de provar que a Ecloga de Crisfal não foi escripta por Christovam Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina não é Maria Brandão, mas sim a mesma do romance Menina e Moça d'aquelle auctor». E accrescenta, que o sr. Delfim Guimarães, empenhado na interessante averiguação, o consultara, communicando lhe as bases em que fundava a sua argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o da rotina.»
Ao contrário da afirmação do snr. dr. Theóphilo, o snr. Braamcamp Freire não declara tal que eu o consultara sobre a averiguação que fiz, como não escreveu na nota citada pelo snr. dr. Theóphilo Braga aquilo que s. ex.a gratuitamente lhe atribue.
Reproduzo textualmente o período que o snr. dr. Theóphilo Braga interpretou a seu bel-prazer, para melhor juizo dos que me lêem:
«O sr. Delfim de Brito Guimarães, que anda empenhado na interessante averiguação, teve a bondade de me comunicar as principaes bases que servirão de alicerce á sua argumentação: entretanto, emquanto não apparecerem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita não transitar sem apelação em julgado, não me compete intervir no pleito e continuarei com a rotina.»
Como se vê, o snr. Braamcamp Freire não escreveu que eu lhe comunicara as bases em que fundava a minha argumentação, mas sim unicamente as principaes bases, e o consciencioso investigador não declarava que taes bases não conseguiram demovê-lo da rotina, mas sim que «em quanto não aparecessem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita não transitasse sem apelação em julgado, não lhe competia intervir no pleito e continuava com a rotina».
Para que torceu, a seu talante o snr. dr. Theóphilo Braga a nota cheia de correcção do ilustre escritor?—Para se servir, como de um escudo protector e cómodo, do nome prestigioso de Braamcamp Freire, procurando, com tal engenho e arte, fazer acreditar aos papalvos desprevenidos que tinha a apoiar o seu desmentido formal ás conclusões do meu trabalho a individualidade, a todos os títulos eminente, do ilustre director do Archivo Historico.
Ora a nota invocada pelo snr. dr. Theóphilo Braga encontra-se logo na 2.ª pagina do estudo do snr. Braamcamp, e foi produzida quando o erudito escritor traçou os primeiros períodos do seu trabalho, conhecendo apenas as «bases principaes» com que elaborei o meu livro Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal).
Depois da leitura do meu modesto estudo, o snr. Braamcamp Freire teve a gentileza de me comunicar que os meus argumentos haviam logrado convencê-lo. E por tal fórma o convenceram que o ilustre escritor logo abandonou a rotina, não carecendo para isso que a sentença sobre a prova feita transitasse em julgado—muito embora isto pese ao snr. dr. Theóphilo Braga, que até viu com desgosto que o abalisado professor snr. Gonçalves Viana, achasse que o meu livro Bernardim Ribeiro fazia honra á erudição portuguêsa.
Mais, o snr. Braamcamp Freire não só me felicitou calorosamente pelo éxito do meu trabalho, que representava a justa reparação devida a um dos maiores poetas da nossa terra, como teve a bondade de enviar-me a prova tipográfica de uma passagem do seu estudo, então no prélo, em que o conceituado escritor confessava publicamente que Maria Brandoa, a lendária amada do Crisfal, passara á historia...
Foi fazer companhia aos cantos de ledino...
Tal passagem se encontra a pag. 402 do ultimo tomo do «Archivo Historico», mas o snr. dr. Theóphilo Braga seguindo os processos... scientíficos que o enaltecem, ocultou-a propositadamente, intencionalmente, aos leitores do seu artigo estampado no Dia.
É como segue:
«...do catalogo porém limitar-me-ei agora a extrair os nomes dos oficiaes da feitoria, reservando-me para aproveitar d'elle, n'outro capitulo, um dado importante para a biographia de Maria Brandôa, já, coitadita! quando este estudo aparecer a publico, apiada de heroina da ecloga Crisfal.»