Applicamos comtudo o dizer d’estes dois philosophos ao nosso assumpto para notar, que tendo a naturesa, por longos annos, recusado vestidos aos corpos dos indios, os compensara formando-os bellos e agradaveis, sem o menor auxilio de suas mães, que apenas os lavam e carregam como si fosse qualquer pedaço de pau.
Assenta-lhes muito bem a opinião de Crates chamando o corpo um reino solitario e deserto, porque assim como os animaes do deserto crescem e ficam vigorosos, em quanto residem ahi, isto é, em sua plena liberdade, assim tambem quando sob o dominio do homem e presos, embora no Palacio dos Reis e principes da terra, para serem vistos e observados como novidade, principiam logo a emagrecer, a entristecer-se, a perder o desejo da propagação e de conservação da especie, somente por terem perdido a liberdade que outr’ora gosavam no seu reino solitario.
Negando a natureza á estes selvagens viveres bem preparados, bebidas bem feitas, vestidos pomposos, leitos macios, soberbas casas e palacios, compensou-os porem, dando lhes plena liberdade como aos passarinhos no ar, e as bestas no campo, sem lastimarem-se, como fazem outros quando comparam as pretendidas commodidades d’este Mundo.
Se o diabo com o fim de roubar-lhes o bem da salvação, não se metesse entre elles, levantando novas discordias afim de se matarem e comerem reciprocamente, não haveriam por certo homens mais felizes no mundo por causa de sua natural franqueza e liberdade, que, adubando as suas carnes as transformam em perfeita e saudavel nutrição, e d’ahi provem a bellesa de seos corpos.
Espero a objecção para responder—isto é, de se terem visto muitos indios sordidos e horriveis. Respondo: não é no rosto, onde se deve observar a forma e a bellesa de um homem, e eis a razão porque Demostenes zombou, quando os embaixadores de Athenas regressando de sua commissão junto a Philippe, Rei de Macedonia, gabavam muito a formosura d’elle: não, não, disse Demostenes, não é digna de louvor a belleza do rosto de um homem, tão commum entre os Cortezãos, porem merece encomios a sua estatura, a proporção de seos membros, e a sua figura e elegancia.
Fallo de haver a naturesa dado ordinariamente aos selvagens, e especialmente aos Tupinambás, corpo bem feito, bem proporcional e elegante, e quando estragam seos rostos por incisões, fendas, e extravagancias de pinturas e de ossos, o fazem pela ideia erronea, que tem, de serem por isto reputados valentes.
Tem muito cuidado na limpesa de seos corpos: lavam-se muitas vezes, e não se passa um só dia, em que não deitem muita agua sobre si, em que se não esfreguem com as mãos por todos os lados para tirar o pó e outras immundicies.
Penteiam-se as mulheres muitas vezes.
Receiam emmagrecer, o que chamam em sua linguagem angaiuare, e lastimam-se diante dos seos semelhantes dizendo Ché-angaiuare, «estou magro,» e todos se compadecem mormente quando chegam de qualquer viagem abatidos pelo trabalho: todos o lastimam e o deploram, dizendo Deangoiuare seta, «ah! quanto está magro, só tem ossos.»
Eis a causa unica por que não podiam residir comnosco os rapazes baptisados, visto temerem muito as mães, que não emagrecessem em poder dos Francezes, os quaes suppunham ter falta de tudo.