Acha-se isto tão naturalmente gravado no fundo da alma das nações as mais barbaras, que serve de argumento mui positivo para provar acharem-se em verdadeira graça os que prestam homenagem aos seos defunctos.

Em caso contrario prova-se que estão em poder do gentilismo, e em opposição ao instincto puramente natural, imitando n’este caso os brutos, não fazendo caso dos seos amigos fallecidos, especialmente da sua alma, melhor parte de sua composição.

É a maldição dada por Job, no cap. 18—Memoria illius pereat de terra, et non celebretur nomem ejus in plateis, «desappareça da terra a sua memoria, e nem seja seo nome pronunciado na rua.»

Symmachus explicando diz Non erit nomem ejus in faciem fori—não chegará seo nome ao foro dos senadores, e mais claramente Policronius Nec in amicorum versabitur memoria «nem seos amigos se recordarão d’elles,» grande maldição, visto que os povos os mais selvagens do Universo que são os habitantes do Brasil nada mais receiam, após a morte, do que não serem chorados e lamentados, isto é, que para elles, na morte, não hajam da parte dos seos parentes, lagrymas, lamentações, e outras ceremonias embora supersticiosas.

Quando se acham muito doentes estes selvagens, e por seos parentes julgados em perigo de vida, perguntam-lhes o que desejam comer antes da morte, e saciam-lhes o desejo.

Em quanto doentes alimentam-se com farinha de mandioca e ionker «pimenta da india,» misturada com sal, julgando com tal dieta, abuso inaudito entre elles, recobrarão a antiga saude.

Vi um homem e uma mulher da nação dos Tabajares, que tinham só pelle e ossos, parecendo-me terem apenas vida por dois dias, e por isso os baptisei logo, apenas me pediram, e escaparem da morte tomando taes caldos.

Quando chega a hora da morte, reunem-se todos os seos parentes, e geralmente todos os seos concidadãos, cercam-lhe o leito do moribundo, os parentes mais perto, depois os velhos e as velhas, e assim de idade em idade: não dizem uma só palavra, olham-no com toda a attenção, banham-se de lagrymas constantemente; mas apenas a pobre creatura exhala o ultimo suspiro, dão berros e gritos, fazem lamentações compostas por uma musica do vozes fortes, agudas, baixas, infantis, emfim de todo o genero, que infallivelmente enternece todos os corações, embora sejam naturaes todas essas dores e lagrymas, sem conhecimento do bem e do mal, que poderá gozar esse espirito desprendido do corpo morto.

Depois de muitas lamentações, o Principal da aldeia ou o Principal dos amigos fazia um grande discurso muito commovente, batendo muitas vezes no peito e nas coxas, e então contava as façanhas e proesas do morto, dizendo no fim—Ha quem d’elle se queixe? Não fez em sua vida o que faz um homem forte e valente?