Ha fructas muito melhores, e em maior quantidade do que na Ilha, em Tapuitapera, e Comã, papagaios de varias côres e diversos tamanhos, notando-se entre elles os Tuins,[55] do tamanho de pardaes, os quaes aprendem com facilidade a fallar, porem morrem de mal quando são levados para a Ilha: vi entre muitos salvarem-se apenas seis, os quaes comendo, cantando, e dançando em suas gaiolas, sem apparencia de molestia, davam duas ou tres voltas e morriam logo.
Ha tambem muitos macacos e monos barbados, bonitos e raros, e que seriam muito apreciados em França, se lá chegassem.
Ahi residia um barbeiro ou feiticeiro muito bem arranjado e com todas as commodidades.
Tinha vindo, um pouco antes d’esta viagem, fazer suas feitiçarias e nigromancias para ganhar o vestuario e a ferramenta dos selvagens do Maranhão e leval-os comsigo quando fosse para a sua terra. Estas feitiçarias eram diversas.
Tinha uma grande boneca, que com artificio se movia, especialmente com o maxilar inferior; dizia elle ás mulheres dos selvagens, que si desejavam vêr quadruplicada a sua colheita de grãos e legumes trouxessem e dessem á ella alguns d’estes generos, afim de serem mastigados tres ou quatro vezes, e por esta forma recebendo a força de multiplicação do seo espirito, que estava na boneca, podiam depois serem plantados em suas roças, pois já comsigo levavam a força da multiplicação.
Gozou de muita influencia por onde passou, muitas foram as dadivas das mulheres, e mal satisfazia o que promettia, guardavam ellas com todo o cuidado os legumes e grãos mastigados.
Estabeleceo uma dansa ou procissão geral fazendo com que todos os selvagens levassem na mão um ramo de palmeira espinhosa,[56] chamada tucum, e assim andavam ao redor das casas, cantando e dansando, para animar, dizia elle, o seo espirito a mandar chuvas, então n’esse anno mui tardias: depois da procissão cauinavam (bebiam cauim) até cahir.[57]
Mandou encher d’agoa muitas vasilhas de barro, e rosnando em cima d’ella não sei que palavras, ensopava um ramo de palmeira, e com ella aspergia a cabeça de cada um d’elles, dizendo «sêde limpos e puros afim de meo espirito enviar-vos chuva em abundancia.»
Tomava uma grande tabóca de bambu, enchia-a de petum, deitava-lhe fogo n’uma das extremidades, e depois soprava a fumaça sobre os selvagens dizendo «recebei a força do meo espirito,[58] e por elle gozareis sempre saude, e sereis valentes contra vossos inimigos.»
Plantou no centro d’aldeia uma arvore de maio, carregou-a de algodão, e depois de haver dado muitas voltas e vira-voltas em redor, lhes prognosticou grande colheita n’esse anno.