Dos astros e do sól.
É bello e magnifico o Ceo, n’esta zona tórrida, embora pareça muito menos estrellado do que na Europa, isto é, não apparecem tantas estrellinhas fixadas na abobada azulada d’aquelle como acontece na do nosso, pois no Maranhão ha estrellas maiores e brilhantes, e mais luzentes do que aqui.
Não me convenço de lá não haverem menos estrellas do que aqui, antes esta falta, que noto, attribuo á minha vista, e por mais esta razão.
Todos os que habitam fóra dos dois solsticios, Cancer e Capricornio, olham obliquamente o centro do ceo, que é a linha ecliptica ou zona tórrida, onde passa o sol, e por tanto tem maior horisonte, ou maior espaço do ceo a contemplar, e menos numero de estrellas a contar.
É pela experiencia confirmada esta razão, porque nasce e deita-se o sol, sem preceder aurora, e assim acaba o dia e começa a noite, e si ha tarde ou manhã é quasi nada.
Na Europa acontece o contrario, pois algumas vezes temos mais de duas horas de tarde, e outras tantas de manhã, antes do nascimento e do occaso do sol, porque os habitantes da zona tórrida estão na esphéra direita e nós outros na obliqua.
Ainda acrescento outra experiencia.
Quando regressamos de Maranhão para cá, no Polo Septentrional, descubrimos mais depressa a estrella d’este Polo, do que quando na nossa viagem para lá descobrimos a estrella do Cruzeiro embora mais elevada do que o Polo Antarctico ou Austral.
Ainda fiz outra observação n’este planeta do Sol, é que mostra dois meios-dias diversos entre os dois termos do anno, de sorte que n’uma metade do anno, olhando o Este está á direita, isto é, na parte austral, e no resto do anno a esquerda, isto é, na parte septentrional, e em ambos elles ha pouca sombra. O sol no zenith somente duas vezes no anno olha para esta terra, como succede a todas as regiões contidas nos dois solsticios: algumas vezes está tão perto da esphera direita, que pouco falta para chegar ao meio dia, e ferir-vos a prumo o cume da cabeça.