Quanto ás terras e aos habitantes inter e extra-tropicaes dividem entre si igualmente, pouco mais ou menos, em diversos tempos, a luz do sol, e por compensação mais n’um tempo do que em outro: no fim do anno acham que cada um teve 12 horas de luz para um dia natural, e dose mezes por anno.
Já disse que os habitantes de Cancer, dentro e fóra do seo Tropico, gosam mais tres dias do sol do que os outros.
Dar a razão natural d’isto, e o que dizem os astrologos, é o mesmo que nada, por ser segredo, que em si guardou a divina Providencia, e uma honra que deo ao mundo antigo, composto d’Asia, Africa e Europa, e si basta uma razão allegorica, sou de opinião que é para fazer sobresahir tres privilegios especiaes, que sobre o mundo velho alcançou o novo, e que são—a primeira habitação do homem expellido do Paraiso Terrestre; dadiva da lei escripta á Moysés; e a redempção do mundo por Jesus Christo.
CAPITULO XXXVII
Ventos, chuvas, trovões, e relampagos em Maranhão e suas circumvisinhanças.
Alem do que a este respeito disse em sua Historia o padre Claudio d’Abbeville acrescentarei para satisfação do leitor o que me fez conhecer a experiencia:
1.º Fallando dos ventos, entre os quaes o do Oriente tem o sceptro e occupa o reino do Brasil, alem das razões dadas por esse Reverendo Padre, dou outra, que devo aos mathematicos, que por lá andaram e escreveram sobre a materia.
Dizem elles, que a constancia d’esse vento soprando por ahi é devida á disposição das costas do Brasil, em linha recta de Este a Oeste, porque tendo o sol levantado os vapores da terra e da agoa e atirando-os apòs si, pela violencia do seo curso diario encontram as costas do Brasil do Oriente ao Ocidente sem inflexão ou curva alguma e por isso seguem por ahi.