Não se assustou Mathias de Albuquerque com as difficuldades de todo o genero, que encontrava seo pequeno exercito n’esses immensos desertos; foi batendo os indios pouco á pouco até que em 3 de Fevereiro de 1617 derrotou-os completamente, e obrigou-os a procurar refugio no seio das florestas. Só então, depois de exterminadas as tribus mais temiveis, é que o velho general se recolheo á Cidade de S. Luiz, e o que elle havia feito nos desertos do Maranhão tinha tambem posto em pratica Francisco Caldeira nas solidões do Pará, onde se edificava a Cidade de Belem.
Não eram estes, por certo, os sonhos de Ivo de Evreux e de seos tres companheiros para com o Maranhão: em suas almas haviam imaginado a fundação de uma Cidade nova, onde os corações innocentes dos indios se lhes reuniriam para em commum louvar o Deos da paz. Ordens de exterminio, em vez de orações, faziam em redor dos colonos um deserto que causava terror. Seriamos injustos, se não dissesemos, que os Religiosos trasidos por Jeronimo d’Albuquerque continuaram a missão dos Padres francezes. Como Ivo d’Evreux e Claudio d’Abbeville, os Padres portuguezes Frei Cosme de São Damião e Frei Manoel da Piedade, eram da Ordem dos Capuchinhos desde 1617, isto é, desde o momento em que a guerra se tornou mais cruel, e Bourdemare publicou seo livro: á Corte de Madrid pediram religiosos activos, acostumados a todas as fadigas, e por isso capazes de affrontal-as e de os ajudar. No dia 22 de julho chegaram mais quatro religiosos a essas terras, não para o pequeno Convento de São Luiz, e sim foram residir nas circumvisinhanças da Cidade de Belem, e d’ahi começou a cathequese no Pará.[AJ]
Não se sabe com certesa, se estes factos historicos, que de ora em diante terão lugar importante nos Annaes do Brasil, chegaram aos ouvidos dos missionarios dedicados que tantas fadigas soffreram para a conversão dos indios; a Europa gastou mais de dois seculos olhando para elles com indifferença, e ainda passaram mais vinte annos depois d’elles terminados, para então ver-se a continuação corajosa da obra dos seos antecessores[AK] por alguns Capuchinhos do Convento de Pariz: n’esse tempo estava Ivo d’Evreux bem proximo do termo de sua existencia, se é que ja não se tinha acabado tão dura perigrinação para elle.
Tudo emfim estava acabado para os povos, nossos fieis alliados por algum tempo, e aos quaes procuramos fazer comprehender as luzes do Evangelho. Achavam-se ja embrenhados nas margens desertas do Xingù, do Tocantins, e do Araguaya: ahi, bem longe dos colonos europeos se perpetuaram sob os nomes de Apiacas, de Gés e de Mundurucus, outrora tão temidos e hoje tão pouco, e até pelo contrario favorecidos por uma administração humana.[AL]
Estes primitivos senhores do Brasil fallam ainda o idioma puro dos Tupys, cujos vestigios nos foram conservados por Ivo d’Evreux e Thevet, e especialmente por João de Lery, antes de ter reunido por meio de laboriosas fadigas os elementos do seo livro.
Foi nas margens destes grandes rios, ja citados, que ha quarenta annos o illustre Martius observou tantas tribus desimadas.
Ainda agora se lastimaria muito o sabio viajante sabendo, que até hoje ninguem colheo as ultimas lembranças, guardadas como legado por esses indios. Quando o governo brasileiro pensou, ha pouco tempo, na creação d’uma commissão scientifica, composta de sabios nacionaes, encarregada de visitar os pontos mais longinquos d’esse immenso Imperio, que não conta menos de 36° do Oriente ao Ocidente, forão o Ceará, o Maranhão, o Pará e o Rio de Janeiro os primeiros lugares designados para a exploração. Comprehendeo muito bem, que se havia nestas terras virgens admiraveis productos da natureza a colher, tambem existia uma mythologia e uma serie de tradicções historicas á salvar-se do esquecimento, em quanto Freire Allemão, Capanema e Gabaglia faziam collecções de preciosos materiaes sobre historia natural, geographia e meteorologia, que formaram o objecto d’uma vasta publicação.[AM]
Um poeta historiador, estimado pelo seo paiz, corajosamente embrenhava-se n’essas solidões incognitas para conhecer os segredos da vida intima dos indios. Antonio Gonçalves Dias, nascido no interior da provincia do Maranhão, familiarisado desde a infancia com as legendas americanas, fallando a lingoa geral, incumbia-se de alguma forma da execução do programma de Martius.
Bem cedo as legendas americanas, não nos animamos a dizer os mythos religiosos dos grandes povos do littoral, nos appareceram, taes quaes tem sido perpetuadas no interior, (graças talvez ao exilio) e quando chegar o momento de estudar-se com afinco a ethnographia, então se comprehenderá todo o valor das narrações sinceras de Lery, de Hans Staden, e de Ivo d’Evreux.
Seria injustiça muito censuravel o negar-se as antigas tentativas feitas pelos Religiosos portuguezes para a cathequese dos povos selvagens, habitantes das regiões do Amazonas: graças a elles, em 1607, principiou a exploração do Maranhão por essas viagens, corajosamente emprehendidas por Missionarios vindos dos Conventos de Pernambuco. Estas tentativas não foram perdidas para a geographia, mas quanto ao proveito do Christianismo, ellas se terminaram em um martyrio inutil. Mais tarde, sem duvida, a obra dos Figueiras e dos Pintos produsio seos fructos, assim como os grandes trabalhos evangelicos suavisaram a posição dos indios do Maranhão.[AN]