Interpretando estas palavras Rabbi Jonathas, diz em sua Paraphrase chaldaica, que a vóz da rolla significa a vóz do Espirito Santo annunciando a Redempção promettida a Abraham, pae de todos os crentes: eis suas proprias palavras:—Vox spiritus sancti et redemptiones quam dixi Abrahæ Patri vestro: «a vóz do Espirito Santo e da Redempção, que prometti a Abraham, vosso Pae.»

Diz mais, que pela figueira deve entender-se a Igreja, e que pelos figos novos se representa a confissão da fé, que devem os crentes fazer diante de Deos, e finalmente que pelas vinhas em flor exhalando bom cheiro são indicados os meninos louvando o Senhor dos seculos: Cœtus Israel, qui comparatus est precocibus ficubus aperuit os suum, et etiam pueri et infantes laudaverunt Dominatorem sæculi: em nosso tempo vimos isto realisado em Maranhão, e suas circumvisinhanças, onde depois que á vóz do Espirito Santo, por meio da prédica do Evangelho, se fez ouvir n’estas terras, e tocou o coração de muitos, especialmente dos que solicitaram o baptismo, a bella figueira da Igreja produzio novos figos, que são as almas sahidas de infidelidade para a crença do verdadeiro Deos, e então as vinhas em florescencia exhalaram seo cheiro quando em suas cabeças receberam os meninos as agoas do baptismo, louvando o Senhor dos Seculos pela parte que ja tomavam do sangue de Jesus Christo e da fé da Igreja.

Coisa admiravel, digna de ser bem pensada e considerada: apenas a vóz do Evangelho trovejou, e fuzilou por essas florestas desertas, por estas sarças, cheias de agudos espinhos, esses pobres bichos (esses selvagens) presos nos laços do cruel caçador Satanaz, começaram animados pela força e impetuosidade d’essa vóz a construir seus pequenos templos, como outr’ora tinha predicto o Propheta Rei David no Psalmo 28. Vox Domini præparantis Cervos, et revelabit condensa et in templo ejus omnes dicent gloriam: a vóz do Senhor amançando os viados, descobrirá o interior das brenhas e das sarças e no seo Templo todos entoarão louvores á elle.

Explicam os doutos, em varias licções, estas palavras dizendo que á voz do Senhor parem os bichos seos filhos, á similhança da mão da parteira ou do cirurgião habil, que serve para tirar do ventre da mulher o menino sam e salvo.

Esta voz não é outra, a darmos credito aos naturalistas, senão o ribombo do trovão, e a luz do relampago, que por um segredo muito intimo da naturesa faz com que param as femeas dos animaes ferozes.

O mesmo produz a prédica do Evangelho, animada e vivificada pelo Espirito Santo, excitando o coração d’estes barbaros, ha muito tempo internados nas sarças e brenhas da ignorancia, da infidelidade, e dos maos costumes.

Nas casas grandes não se falla mais de outra coisa senão do conhecimento de Deos, contando cada um o que ouvio de nós quando veio visitar-nos, e terminando essas especies de conferencias pela manifestação do grande desejo, que tinham de vêr seos filhos baptisados e elles tambem, por meio d’estas e outras palavras similhantes.

Que coisas, diziam elles, são estas, que os Padres nos contam por meio dos interpretes? Nunca as ouvimos iguaes.

Nossos paes, ja por tradicção nos contaram, que outr’ora veio aqui um grande Maratá de Tupan,[92] isto é, Apostolo de Deos nas provincias, onde residiam, e lhes ensinou muitas coisas de Deos: foi elle quem lhes mostrou a mandioca, as raizes para fazer pão, porque antes só comiam nossos paes raizes do matto.

Vendo este Maratá, que nossos antepassados não faziam caso do que dizia, resolveo deixal-os, mas antes quiz dar-lhes um testemunho de sua vinda aqui, esculpindo n’uma rocha uma especie de mesa, imagens, letras, á fórma de seos pés, e dos seos companheiros, as patas dos animaes, que trasiam, os furos dos cajados, a que se arrimavam em viagem, o que feito passaram o mar, procurando outra terra.