A estas palavras seguio-se logo a pratica, porque foram muitos meninos entregues ao Rvd. padre Arsenio, residente em Juniparan, e a mim, morador em São Francisco, perto do Fórte de São Luiz, para acudir aos francezes e receber os Indios de outras terras, que todos os dias nos vinham vêr e conhecer, si era verdade o que de nós se dizia em longes terras.

Foi esta a divisão, que fizemos, de tantas e tão grandes terras para cultivar e lavrar o que permittissem nossas forças, cuidando um de uma parte e outro de outra, excepto quando houvesse necessidade de sahir da Ilha, porque então se tomariam providencias adequadas.

Impossivel é á palavra o pintar o contentamento e a alegria, que sentiamos vendo estes selvagens trazer-nos seos filhos, voluntaria e expontaneamente, para serem baptisados, preparando-os o melhor que podiam com os meios offerecidos pelos francezes, isto é, vestidos com um pedaço de panno de algodão, escolhendo padrinhos entre os francezes, contrahindo assim com elles estreita alliança, especialmente com os meninos baptisados, si estivessem em idade de o conhecerem, porque então considerariam seos padrinhos como seos proprios paes, chamando-lhes pelo nome de cheru, «meo pae» e sendo pelos francezes chamados os rapazes cheaire «meo filho,» e as meninas cheagire «minha filha»: vestiam-nos em summa o melhor, que podiam, e os selvagens, paes dos meninos baptisados, lhes offereciam todas as commodidades resultantes de suas roças, de suas pescarias, e caçadas.

Vendo assim estas cousas, lembrava-me do que diz o cap. 5º dos canticos. Oculi ejus sicut cólombæ super rivulos aquarum, quæ lactæ sunt lotæ, et resident juxta fluenta plenissima: «os olhos de Jesus Christo, esposo da Igreja, parecem-se com os olhos da pomba, orvalhada de leite, que contempla os regatos das fontes, e faz seo abrigo e morada nos rochedos, que abrangem rios amplos e espaçosos.»

Estes olhos de Jesus Christo são as graças do Espirito Santo, que fazem quebrar seos ovos á maneira das tartarugas, expostos á mercê das innundações do mar e da frialdade da areia.

Tem estes mesmos olhos por plano e fim lavar e purificar as almas, especialmente as almasinhas rociadas de leite. Assim como a pomba branca brinca sobre os riachos, e habita á margem dos grandes rios, assim tambem o Espirito Santo folga e muito na conversão de uma terra nova, e encara com bons olhos a sahida d’estas almasinhas do estado geral d’estas terras barbaras, a saber, da ignorancia de Deos para chegar a conhecel-o por meio das agoas do baptismo, partecipantes, como nós, da visão de Deos, porque não fazem accepção de ninguem, visto que estas almas barbaras lhe custaram tanto como as nossas.

Oh! preço infinito! oh! falta de caridade, que não tem desculpa perante Deos, de se verem tantas almas pedindo a salvação, sem embaraços e riscos, e em risco de se perderem por não haver um pequeno auxilio.

Bom Deos! todos nós acreditamos, e Jesus Christo confirma esta crença, que uma só alma valle mais que todo o resto do mundo, isto é, que todos os imperios, e reinados da terra, que todas as riquezas e thesouros do homem: mais ah! não temos difficuldade de pôr em execução nossas crenças.

Não posso deixar este assumpto sem primeiro declarar a luta interior, que experimentei, para fazer vêr e descarregar minha consciencia tanto quanto a julgo compromettida, parecendo-me bastante para minha justificação e defesa o que acabo de dizer.

Li e notei em bons auctores, profundos e perspicases no conhecimento dos segredos e mysterios da Escriptura, que as pombas brancas orvalhadas de leite eram certas pombas, que os Syrios creavam em honra e veneração de sua rainha Semiramis, sendo prohibido matal-as sob pena de morte.