Na ilha cahiram doentes duas raparigas, uma livre e outra escrava, sendo aquella casada com um Tupinambá, muito bom moço, o qual depois da morte de sua mulher, constantemente nos perseguia para ser baptisado, aprendendo com muito boa vontade a doutrina christã.
Esta rapariga, proxima da morte, pedio que lhe dessem o baptismo, confessando por palavras nascidas do coração a verdade da nossa religião, mostrando por signaes exteriores o toque do Espirito Santo no seo coração, banhando-se de lagrymas de amor e de reconhecimento ao grande Tupan, que lhe fazia tão assignalada graça de a ter feito nascer neste seculo para tiral-a do meio de tantas almas perdidas de sua nação e conceder-lhe o goso do paraizo.
Fitava com attenção o Ceo, e com palavras doceis e tremulas recitava o que sabia á respeito da crença de Deos, repellindo para bem longe Geropary e seos antigos enganos.
No meio d’este discurso, precursor da morte, lamentava a condemnação de seos antepassados.
Fazia exposições muito bellas a seo marido e o animava a receber quanto antes a purificação de seos peccados.
Devo dizer d’ella um facto muito particular, qual o de haver conhecido um só homem, o seo marido, o que é não pequeno milagre n’aquelle paiz, por causa do mau costume introdusido pelo diabo no coração das moças, de se honrarem pela deshonra, e de não apreciarem a castidade ou a virgindade.
Bem vêdes por isto, que em todos os escolhidos de Deos ha sempre alguma virtude natural, que provoque, não por merecimento e sim pela occasião, a graça de Deos, que similhante ao sol, com indifferença, está a entrar n’alma de todos, si houver para isso disposição.
A Tapuia, ou escrava, atacada por violenta febre, que a atormentava muito, achava-se em sua rede só e por todos abandonada, conforme o uso e costumes d’elles, que consideram grande deshonra cuidar d’uma escrava quando está a morrer, isto antes da nossa chegada a ilha, quando então lhes mostrámos o quanto era desagradavel á Deos a crueldade com que atiravam por terra o escravo moribundo e lhe quebravam a cabeça como ja disse.
Esta desgraçada mulher, prisioneira de Satan, e victima das desgraças communs da natureza, que são as enfermidades e as doçuras dolorosas e insuportaveis, sem pessoa alguma junto de si foi então olhada com piedade, e visitada por seo Creador, animando-a a pedir o baptismo. Oh! juiso de Deos! Oh! providencia eterna!
Quem poderá comprehender teos conselhos na vida do homem!