Em nossa primeira missão achamos estes pobres selvagens e barbaros como pedras proprias para construir e edificar a Santa Igreja em paizes desertos, e com o nosso ministerio demos a misericordia divina á algum punhado de terra e areia.

Baptisamos muitos meninos, moribundos e adultos, que são na verdade tres grãos de areia, á similhança da extenção e profundidade das areias do mar, isto é, em comparação da quantidade e multidão das nações immensas pelo seo numero, na visinhança do Maranhão.

Digamos depois, com São Jeronymo, quia placitos fecerunt servi tui lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem, que temos feito vêr a toda a Christandade, e aos seos monarchas, espirituaes ou temporaes, em desencargo de nossa consciencia, que á Deos agrada o despertar estes barbaros do profundo somno de uma crença má, ou si quizerdes, que á Deos agrada fazer arder e queimar a pequena faisca do fogo da luz natural, que sob as causas de mil superstições é sempre guardada entre estas nações desde o naufragio universal do diluvio.

Esta faisca, occulta sob as cinsas, entre estes selvagens, é a crença natural, que sempre tiveram de Deos, dos espiritos e da immortalidade da alma.

Quanto á crença de Deos, é impossivel, naturalmente fallando, que haja no Mundo uma Nação tão rude, estupida e brutal que não reconheça universalmente uma Magestade Soberana, porque, como diz Lactancio Firmiano, em suas Instituições divinas, livro 1.º, cap. 2.º—Nemo est enim tam rudis, tam feris moribus, qui non oculos suos in cœlis tollens etc. Não ha homem tão rude, nem tão brutal, que levantando os olhos para o Ceo, ainda que não possa comprehender que haja Deos, qual seja a sua providencia, embora não conheça da grandesa e extenção dos Ceos, do perpetuo movimento d’elles, da disposição, firmesa, utilidade e bellesa d’estas abobadas azuladas, que não reconheça haver um Soberano que tudo isto dirige e com harmonia.

Boecio, livr. 4º, da Consolação dos sabios. Prosa 6.ª Omnium generatio rerum etc. «que a geração continua dos mistos, a diversidade, e ordem das formas, que vestem a materia primitiva, convence natural e necessariamente, que ha um primeiro director no movimento uniforme de tantas coisas de formas contrarias no sentido de aperfeiçoar este mundo universal.»

Seneca, na Epistola 92 á seo amigo Lucilio—Quis dubitare potest mi Lucilli, quin Deorum immortalium munus sit quod vivimus? «Quem é meu amigo Lucilio, que duvida não ser sua vida um dom e beneficio dos Deoses immortaes?»

Aristoteles, Livro II dos animaes, depois que contou muito bem a perfeição d’elles concluio debemus inspicere formas et delectari in Artifice qui fecit eas: «devemos contemplar as formas das creaturas, não para olhal-as só e simplesmente, e sim para d’ellas passar ao que as fez afim de nos regosijarmos.»

É facto averiguado sempre terem tido estes selvagens conhecimento de Deos, porem não da Essencia, Unidade, e Trindade, materia inteiramente dependente de fé, embora Deos tenha deixado na naturesa alguns vestigios, pelos quaes possam os homens formar algumas conjecturas.

Aristoteles, livro 4º, do Ceo e da terra, depois de ter pensado muito nas perfeições d’este mundo, disse Nihil est perfectum nisi Trinitas. «Somente a Trindade é perfeita.»