Não é sem fundamento, que ella escreveo e servio-se d’estas palavras—vi deoses, a menos, que estas feitiçarias não tivessem poder e força para fazer apparecer alguns diabos, mas quiz Deos, que a propria alma de Samuel acudisse á sua palavra afim de prophetisar a ultima desgraça de Saul, que em suas necessidades havia recorrido aos adevinhos e feiticeiros.
Soube de alguns francezes, moradores na aldeia de Vsaap, que um feiticeiro d’ahi era mui respeitado e temido pelos selvagens, por ser geral a crença delle fallar com toda a liberdade com o diabo, pela maneira ja dita, e por isso não se atreviam a aproximar-se de sua casa quando viam a porta fechada receiando tal colloquio.
Havia tambem na Ilha uma velha feiticeira, que guardava-se muito em segredo: era mui apreciada pelos selvagens e procurada especialmente nas molestias incuraveis; quando todos os feiticeiros já não sabiam o que haviam fazer, então ella era convidada, e trazida com segurança, porem sempre occulta.
N’um dia, segundo o que me disseram alguns francezes, ella veio a Vsaap para fazer uma cura, já sem esperança, e, antes de começar fechou-se n’uma casa, isolada no meio da praça da aldeia, e ahi fez suas invocações e feitiçarias diabolicas sobre o corpo do infermo, fazendo apparecer visivelmente o seo demonio.
Os francezes, que isto me contaram, tiveram desejos de espiar o que fazia esta feiticeira, porem os selvagens os embaraçaram o mais que poderam, asseverando-lhes serem perigosos e maus os espiritos d’esta mulher, de fórma que na seguinte noite torceriam o pescoço de quem os espiasse.
Zombaram os francezes, e foram de muito boa vontade á essa casa, com grande admiração dos selvagens, que os julgavam atrevidos e presumpçosos, e fazendo um buraco na parede de palha viram as gesticulações d’essa mulher e notaram não sei que de monstruoso ao redor d’ella, não podendo destinguir o que era, e assim se retiraram.
Em quanto estive doente, muitas pessoas me fallaram d’esta desgraçada creatura com grandes gabos e estima, como infallivel em dar saude aos que lh’a pediam. Bem podeis calcular si me agradavam taes palavras.
Fallaram-me tambem de certos barbeiros d’aquelles paizes, que habitavam em choupanas nos bosques, onde iam consultar seos espiritos.
Na verdade, é frequente na Ilha e nos paizes visinhos edificarem os feiticeiros pequenas choupanas de palha em lugares longinquos nos mattos: ahi collocam pequenos idolos de cera ou de madeira em forma humana,[102] uns maiores, outros menores, porem os maiores não tem mais que um covado. Ali em certos dias vão elles levando comsigo fogo, agoa, carne ou peixe, farinha, milho, legumes, pennas de côr e flôres. D’estas carnes fazem uma especie de sacrificio a esses idolos queimam resinas cheirosas, enfeitam-nos com pennas e flores, e ahi se demoram muito tempo sosinhos: crê-se que era a communicação d’estes espiritos.