Tambem vos disse, que os selvagens ficavam muito admirados quando viam seos similhantes, baptisados, discorrer em sua lingua sobre coisas altas, profundas, e tão novas, como as que conheciamos por seos interpretes, e diziam uns aos outros—como é que esta gente falla tambem de Tupan, como os Padres lhes tem ensinado tão bellas coisas, quaes as que nos contam: como nossos filhos sabem mais do que nós, nossos Padres, e mais remotos antepassados, que embora tenham vivido muito nada nos contaram como estes Padres: por força fallaram com Deos.
Em terceiro lugar. Serpentes tollent «elles desviaram as serpentes.» Que são essas serpentes do Brazil, que com sua lingua e cauda envenenam estes povos? Não são todos os grandes e pequenos feiticeiros, que envenenam suas Nações?
A fé de Jesus Christo é como a Cegonha, que purifica o paiz, onde está, das serpentes venenosas.
S. Paulo, na Ilha de Malta, atirou ao fogo a vibora que trazia no dedo.
O dedo dado por Jesus Christo aos Apostolos, é o poder do Espirito Santo, que de ordinario busca agentes naturaes docemente, sem constrangimento, para dispôr o objecto a receber uma nova fórma pelo banimento e ruina de outra fórma contraria.
Estas viboras, arremeçadas ao fogo, são os Ministros de Satanaz, que o Espirito Santo expelle para tornar a Nação cheia d’abusos susceptivel de acceitar o Evangelho e de conhecer a Deos.
Si eu disser, que me parece ter o Espirito Santo, em relação a estes feiticeiros do Maranhão, feito um grande milagre, que nunca fez para com os sacrificadores do Paganismo, creio ser bem recebida a minha opinião, porque, alem de dois ou tres feiticeiros, todos os grandes só desejam ser baptisados: ao contrario, raras vezes estes sacrificadores do diabo, na gentilidade esposavam o christianismo.
Por isso podiamos dizer, que as serpentes venenosas, que se arrastam na terra, tornam-se passaros voadores no elemento do ar, conforme a profecia de Isaias: De radice colubri egredietur Regulus, et semen ejus absorvens volucrem: «da raiz da cobra sahirá o Basilico, e a semente do Basilico engulirá o passaro,» o que Vatable assim interpreta[105]: De radice serpentis egredietur Regulos, et fructus ejus, cerestes volans: «da raiz da serpente sahirá o Basilico, e o seo fructo será uma cerasta volante.»
Para entender esta passagem convem recordar-se do que escrevem os naturalistas, a saber, que as cobras grandes e grossas geram o Basilico quando comem um sapo; porem o Basilico procura gallinhas brancas, com quem se unem, pondo ellas ovos, que enterram n’areia ao ardor do Sol, e d’elles sahem serpentes, que voam.
Nada dizem, que eu não visse em Maranhão, conforme me diziam e pensavam os selvagens, e aconteceo-me por duas vezes, que uma gallinha branca que eu tinha, pozesse dois ovosinhos redondos como uma ameixa de dama e salpicados, e depois ella mudou de cacarejar, e parecia louca.