Pacamão é pequeno no corpo, vil e abjecto á tal ponto, que quem não o conhece, não faria caso d’elle.

Comtudo isto é o maior e o mais graduado de todos os principaes do Maranhão, especialmente na provincia de Commã, uma das mais bellas, fertil e povoada no paiz dos Tupinambás.

Goza entre elles de tal poder, que somente com sua palavra tem movido todos os habitantes, sendo extremamente temído.

É fino e velhaco tanto quanto pode ser um selvagem, e por essas qualidades chegou a obter esse poder, grandesa e prestigio, sendo tido por supremo curandeiro, subtilissimo feiticeiro, muito familiarisado com os Espiritos, tendo entre suas mãos e á sua disposição a morte e a vida, concedendo vida e saude a quem bem lhe aprouver; alem de grande bafejador entretinha os ingenuos por meio de confissões, de lustração, incensamento, e muitas outras coisas iguaes como ja dissemos.

Não foi dos primeiros a visitar os francezes e fazer-lhes seos offerecimentos, desejando vêr o que elles queriam, porque tinham vindo aqui, e como se estabeleceriam.

Informando-se bem de tudo isto, veio ao Forte de Sam Luiz, entrou, e saudou agradavelmente o Sr. de la Ravardiere. Vinha bem acompanhado por indios enfeitados de pennas, trouxe comsigo a mais vigorosa de todas as suas mulheres, cujo numero chegava a trinta.

Chegando a Yuiret, tendo passado o mar em nossa barca, que tinha ido buscar farinha á sua terra, distante mais de 40 legoas do Forte de Sam Luiz, fez saber ao Sr. de la Ravardiere, que ia ao seo Forte, e foi esperado.

Formou sua gente, uns atraz dos outros, e todos o acompanharam.

Andou ao redor das casas, situadas na grande praça de Sam Luiz, fallando como era de costume, apregoando sua grandesa, o seo amor aos francezes, o objecto da sua visita, e tambem o valor e poder dos francezes.

Acabado isto, aproximou-se da porta do Forte, perto de um quartinho, onde estavam alguns francezes observando o que elle fazia.