Respondi-lhe, que achava isto bom, e que estava contente vendo-o assiduo no trabalho para que fóssem bem feitas as trincheiras e fóssos afim de resistirem a seos inimigos, e que depois si nos offerecia occasião de conferenciarmos: que era só isto, que eu desejava, que nós todos o estimavamos e muito, tanto por sua bondade natural como porque elle era amigo dos francezes, e sempre fiel.

Assentamos-nos depois um em frente do outro, conversamos sobre muitas coisas indifferentes, especialmente do enthusiasmo de sua gente, e particularmente das crianças, que carregavam terra, o que causava a elle e á nós muita satisfação, fazendo-me dizer e a proposito, que bem razão lhes assistia n’esse trabalho, cheio de fervor e de coragem, pois era para elles, que se lidava, visto que um dia veriam as maravilhas feitas pelos francezes n’esta terra.

«Serão bem differentes do que somos, dizia elle, porque serão Caraibas, andarão vestidos, e verão as Igrejas de Deos construidas de pedra.»

Confirmei em minha resposta a felicidade de seos filhos no futuro, assegurando-lhes, que d’ella tambem gozariam porque não haveria muita demora na vinda de soccorros e navios de França trazendo muitos Padres, muitos francezes guerreiros, muita ferramenta e generos para elles: que então se construiriam casas á maneira dos francezes, que seriam acompanhados por elles quando fossem guerrear seos inimigos, que viriam os Tupinambás e os outros alliados cultivar a terra da Ilha, e que tudo isto poderiam vêr antes de morrerem.

Ditas estas palavras despedi-me d’elle, e regressei á minha habitação.

Quando acabou o tempo do seo trabalho veio visitar-me, acompanhado pelos principaes da sua Nação, e pelo interprete Migan.

Assentou-se, e pedindo fumo, como costumava, me disse estas palavras:

—Antigamente usei de muitas feitiçarias para me tornar grande e authoridade entre os meos.

Muito tempo ha que conheci este abuso, e que zombo dos que se empregam n’este officio.

Não ignoro a existencia de um Deos, porem não sei conhecel-o.