Passando a linha, avistamos e afinal chegamos a uma pequena ilha chamada Fernando de la Roque,[113] situada a quatro graus de altura para o meio dia, e a cinco para seis legoas de circumferencia, ilha bella e agradavel, cujas propriedades, querendo Deos, havemos de descrever na primeira opportunidade: é na verdade um verdadeiro paraisosinho terreste.

Saltamos n’esta ilha, onde apenas achamos 17 ou 18 indios selvagens, em companhia de um portuguez, todos escravos e ahi postos por determinação da gente de Pernambuco: d’estes indios baptisamos cinco.

Depois de havermos plantado a Cruz n’esta ilha, no centro de uma capella, feita por nós para celebração da santa missa, e de abençoado o logar onde residimos por 15 dias, casamos dois destes selvagens, um indio com uma india, depois de baptisados.

Não quizemos baptisar o resto aqui, porem achamos bom addiar o baptismo até chegarmos ao lugar do nosso destino, si bem que libertassemos todos esses selvagens tirando-os do captiveiro, e fazendo-os livres com muita satisfação d’elles, depois do que manifestaram ardente desejo de nos acompanharem até Maranhão, como de facto aconteceo.

Vieram comnosco trazendo muito algodão, e outros generos, que possuiam.

De Fernando de la Roque ganhamos a Costa do Brasil, caminhando até o cabo da tartaruga, terra firme no paiz dos canibaes, onde, diz Euzebio, na sua Historia, passara o Apostolo Sam Matheus á vista d’esta Costa do Brasil: imaginae a nossa alegria vendo terras tão desejadas após cinco mezes de navegação.

Depois de 15 dias de demora no cabo das tartarugas, continuamos a navegar, e chegamos á ilha do Maranhão, onde fundeamos no dia da gloriosa Santa Anna, Mãe da Sagrada Virgem Maria, com que muito me alegrei, (disse o padre Claudio) por termos tido n’esse dia, que eu tanto amo, a felicidade de chegarmos ao lugar tão desejado.

No domingo seguinte saltamos todos em terra, levando agoa benta, cantando o Te-Deum laudamus, o Veni Creator, a ladainha de Nossa Senhora, e depois caminhamos em procissão desde o porto atê ao lugar escolhido para levantar se uma Cruz, a qual foi carregada pelo Sr. de Rasilly e todos os Principaes da nossa Companhia.

Depois de benzida esta ilha, até então Ilhasinha, foi pelos Srs. de Rasilly e la Ravardière chamada Ilha de Santa Anna, não só por termos ahi chegado n’esse dia, como tambem porque chamava-se Anna a Condessa de Soissons, parenta do Sr. de Rasilly.[114]

Depois plantamos a Cruz: ao pé d’ella, estando todo o largo abençoado, enterramos um pobre homem, tanoeiro, que vinha comnosco.