Da sua antiga occupação de advogado se recordava e se aproveitava das tricas e desordens, proprias da epocha, e até lançava mão da astrologia judiciaria, pelo que se lhe attribuio a authoria do Fatum Mundi, livro absurdo, mas que durante algum tempo preoccupou a attenção publica.
Declarado por unanimidade o oraculo do seu Convento, nem se quer por um momento houve a ideia de associar-se á sua lembrança o nome d’um Religioso, igual ao seo, e que apenas sabia sacrificar-se com o fim de ganhar algumas almas para Deos! O que fazia o nosso modesto amante da natureza diante de tal personagem, tão cercada de gloria, diante da Phenix dos theologos francezes, como então por gosto o appelidavam?[D]
Mas, quem é que se recorda hoje do Padre Ivo de Pariz? Quem cuida hoje nas discussões, cuja vehemencia lhe attribuiram tão viva admiração?
Colloquemos os homens e os factos nos lugares, que devem occupar.
Ivo d’Evreux poude contemplar em sua grandeza primitiva uma terra exuberante de vida e de mocidade: dois seculos de esquecimento passaram sobre sua obra, e hoje em dia brilha elle remoçado, cheio de graça, ao lado de Lery, de Fernando Cardim, de Anchieta, emfim de todas essas almas privilegiadas, que uniam a faculdade da observação á apreciação apurada das bellezas da natureza, e que saudaram, poetas desconhecidos, a aurora de um grande Imperio.
Ivo d’Evreux, diga-se com pezar, teve o destino de quasi todos os historiadores primitivos do novo mundo: sua biographia, embora pouco desenvolvida, ainda está por escrever, e apesar das mais minuciosas e constantes investigações n’estes ultimos tempos, apenas conhecemos as circumstancias mais importantes de sua vida, e assim mesmo nada ao certo saberiamos si não fossem algumas notas colhidas em varios archivos dos antigos Conventos. Foi geral o esquecimento tanto da sua obra, como do seo autor. Pensam os escriptores de sua Ordem haverem dito bastante, lembrando ter elle vivido no seculo XVII, ter sido missionario zeloso, e autor de um livro, continuação obrigada da viagem do Padre Claudio, e até se esquecem de mencionar a sua existencia por espaço de dois annos entre os indios, onde este apenas demorou-se quatro mezes.
Conforme as inducções, que se podem tirar de um folheto manuscripto, conservado na bibliotheca Mazarina, opusculo cheio de datas precisas, relativas aos Capuchinhos do Convento da rua de Santo Honorato, o nosso Missionario devia ter nascido em 1577.
Indica por certo seu sobrenome a cidade onde elle nasceo, porem ignoramos qual foi o nome, que teve no seculo, como então se dizia. Á este respeito os amadores das viagens antigas foram mais bem succedidos quanto ao seo companheiro, o Padre Claudio, que se sabe pertencera a uma excellente familia, a dos Foullon.[E] O que ha de bem averiguado é, que os paes do Padre Ivo o applicaram á estudos excellentes, e que os seus professores não se contentaram de ensinarem-lhe só o latim e sim tambem o grego, e até o hebreu, e inspiraram-lhe tal gosto litterario, sem o qual não ha escriptor habil.