Chegados ao Forte depois de descançarem como poderam, conservaram-se serios e reservados sem entregarem-se á vivacidade e impulso da curiosidade, e sendo a imperfeição unica dos francezes o fazer tudo ás pressas, buscando todos os meios de conseguir seos fins, foram elles ter com o Maioral, aos quaes assim fallaram:

«Conforme as noticias que déstes a dois dos nossos, escravos entre os Tupinambás, para nos transmittirem fielmente a respeito da tua vinda e da dos Padres n’estes lugares afim de defender-nos dos Peros, e ensinar-nos a conhecer o verdadeiro Deos, dar-nos machados e outras ferramentas para facilitar a nossa vida, fallamos n’isto em muitas reuniões, e recordando-nos de que os francezes sempre nos fôram fieis, vivendo em paz comnosco, e acompanhando-nos á guerra, onde alguns morreram, todos os meos similhantes mostraram-se contentes e resolveram, de combinação com o nosso chefe, obedecer-te e em tudo fazer-te a vontade: eis porque me mandaram expressamente afim de pedir-te alguns francezes para acompanhar-nos e guardar-nos até voltarmos do lugar, por ti indicado.»

Respondeo-se-lhe com palavras de amisade, e que se lhes daria os francezes.

Sahindo d’ahi foram procurar-me em minha casa, onde tambem me exposeram a sua missão, de que fallarei quando for occasião.

Pediram-me o meu pequeno interprete para ir com elles assegurar ao Thion, seo chefe, e a todos os seos companheiros, que eu os receberia como filhos de Deos, e que podiam vir afoitamente confiados na protecção dos Padres.

Acompanhados por muitos francezes e pelo meo interprete, a quem dei algumas imagens como mimos, a Thion, elles embarcaram para o Mearim em busca de suas casas.

Foram recebidos com muitos applausos, choros, lagrymas, e danças de dia e de noite.

Prepararam vinhos em abundancia, presentearam os francezes com muitos porcos do matto e outras caças, e offereceram-lhes muitas raparigas das mais bonitas, o que regeitaram dizendo que Deos não queria, e que os Padres prohibiam, e se quizessem agradar os Padres, quando fossem para a Ilha, deviam levar Cruzes para expellir o Giropary[26] do meio d’elles: assim o disseram, assim o fizeram, plantando muitas Cruzes, em varios lugares na frente de suas casas, como ainda hoje se vê, e que ficaram como prova de habitação antiga, d’onde foram chamados para ir á outra terra, já illuminada pelo conhecimento de Deos, e enriquecida com os Sacrosantos Sacramentos da Igreja, como aconteceo outr’ora com a nação do povo de Israel, que sahio do Egypto em busca da terra da Promissão.

Dispostas estas coisas, cada um cuidou em arrumar-se e fazer sua colheita, destruir as roças, e preparar bom farnél, pois deviam em pouco tempo deixar e abandonar este lugar: indagavam muito de varias coisas tendentes á sua salvação, e eram satisfeitas as suas perguntas.