Gostam muito de traser as espadas tão limpas como cristal, e para isso as esfregam com areia fina e azeite de mamona, amolam-nas repetidas vezes para estarem sempre cortantes, aguçam as pontas, quando estão gastas pela ferrugem muito commum na zona tórrida.

Acostumam-se a bem manejal-as, fazendo marchas e contra-marchas, á maneira dos suissos quando esgrimam.

Alem de serem corajosos e bons soldados, trabalham muito bem, e antes quero uma hora de tarefa d’elles do que um dia dos Tupinambás.

Seos Principaes trabalham tanto quanto os seos subordinados de menor representação, porem o serviço está bem regulado, porque ao romper do dia levantam-se, almoçam, e depois vão elles mulher e filhos, conjunctamente, alegres risonhos, cantando trabalhar em suas roças, e quando o sol principia a chegar ao seo maior auge do calor, que é perto das dez horas, deixam a lida, vão comer e dormir, e duas horas depois do meio dia, quando o sol principia a declinar voltam outra vez ao trabalho, onde se conservam até ao anoitecer.

Os Principaes, que ordinariamente tem mesa franca, para o que necessitam de roças maiores, preparam um Cauin geral, e como todos partilham d’elle, se incumbem de cuidar nas plantações, o que fazem com alegria n’uma ou duas manhãs, e depois vão beber na casa d’aquelle para quem trabalharam, bebendo cada um quando chega a sua vez, e quando o acham bom o gabam com todas as suas forças, compõem cantigas adequadas, que entoam ao redor da casa ao som do Maracá, pronunciando estas ou outras similhantes palavras: «oh! o vinho, o bom vinho, nunca elle teve igual; oh! o vinho, o bom vinho, nós o beberemos á vontade, oh! o vinho, o bom vinho, n’elle não acharemos preguiça.»

Chamam o vinho preguiçoso quando não tem força bastante para embriagal-os immediatamente, e que não lhes provocam o vomito por mais que bebam.

Tomam as raparigas parte n’esta festa, onde se dança e canta-se á fartar, deitam-se os que se embriagam logo e raras vezes apparecem questões: são alegres e agradaveis n’essa occasião, especialmente as mulheres, que fazem mil macaquices á ponto de provocarem grande hilaridade, até a individuos mais tristes e melancolicos. Por mim confesso, que nunca em minha vida me ri tanto como quando estas mulheres altercavam umas com as outras, empunhando copos de madeira cheios de vinho, bebendo ora um, ora outro, fazendo muitas macaquices e tregeitos.

Dão com muita facilidade o que mais presam, como sejam suas filhas e suas mulheres, porque observei quando se cuidou na segunda viagem do Miary que muitos Tupinambás tanto da Ilha do Maranhão, como de Tapuitapera, foram de proposito com os Francezes para pedirem filhas e mulheres dos Miarinenses, o que facilmente obtiveram, como muitas outras coisas, que só fazem estes povos, e por isso mesmo muito caros e preciosos entre os Tupinambás.

Tambem tem por costume, que igualmente observei entre os Tupinambás, o trazerem assobios e flautas, feitos dos ossos das pernas, coxas e braços de seos inimigos, dos quaes arrancam sons fortes, agudos e claros, e ao som d’elles entoam seos cantos usuaes, especialmente quando estão nos Cauins, ou quando vão a guerra.

As raparigas não se despresam em casar com velhos e grisalhos, como praticam as dos Tupinambás, e sim antes querem esposar um velho, especialmente quando é Principal, e admirei-me, como coisa desagradavel, o vêr muitas jovens, de quinze a deseseis annos, casadas com velhos, e o contrario praticam as raparigas dos Tupinambás, as quaes passam a sua mocidade livremente, e depois acceitam um marido.