Sem tratar dos armadores de Dieppe, cujas primeiras explorações pelas costas do Maranhão, datam de 1524, sem mencionar as navegações de Affonso de Xaintongeois até as boccas do Amazonas no anno de 1542, ser-nos-ia facil provar, que 25 annos mais tarde Henrique IV doara a um bravo capitão da religião reformada a immensa extensão de territorio, para a qual devia ir Ivo d’Evreux, sahindo do seu pacifico retiro de Montfort, afim de cathequisar os selvagens.

Vemos com effeito Daniel de la Touche, senhor de Ravardiere, de posse d’essas doações tão vagamente definidas pelas Cartas patentes de julho de 1605.[J]

Adquirimos tambem a certeza, que depois de dois annos, após duas viagens successivas ao norte do Brasil, Ravardiere decidio os Tabajaras e Tupinambás, propriamente ditos, a mandarem uma especie de embaixada ao Rei Christianissimo com o fim de solicitar sua protecção contra as invasões dos portuguezes.

Foi debalde esta missão d’indios, porem como Ravardiere continuasse a residir por muito tempo entre elles, conseguio em 1610, que lhe fossem renovadas as doações feitas cinco annos antes, e assim julgou-se authorisado, logo depois da morte de Henrique IV, a formar uma associação para a definitiva colonisação d’estas regiões abandonadas.[K]

Não foi comtudo aos partidistas de sua Religião, que se dirigio Ravardiere para ser bem succedido n’este empenho: pelo contrario sem hesitar entrou em conferencia com catholicos proeminentes, cuja lealdade perfeitamente conhecia, como sejam, o almirante Francisco de Razilly, uma das mais antigas glorias da França, e Niculau de Harlay, uma de suas summidades financeiras, e elles se lhe associaram para a exploração d’este previlegio.

Em todo o seculo XVII não conhecemos outra transacção, entre catholicos e protestantes, mais leal e desinteressada: foi na verdade uma empresa, digna de contar em si o Padre Ivo d’Evreux, tão sincero como justo.

O titulo de lugar-tenente do Rei, sem a menor questão, foi transferido á Rasilly, que teve toda a liberdade de acção, não deixando comtudo de fazer prevalecer as prerogativas da communhão, que professava.

Em todas as praias onde desembarcassem, devia levantar-se uma cruz com toda a solemnidade, e bem assim missionarios catholicos seriam condusidos para propagação da fe entre o gentilismo.

Estes contractos foram na verdade pontualmente executados, e nem na obra de Claudio d’Abbeville, e nem na de Ivo de Evreux se encontra uma só palavra, que faça suspeitar o menor estremecimento entre os chefes da expedicção.