Os nossos Tupinambás nunca tiveram ideia alguma de civilisação até hoje; eis a razão porque elles se esforção, por toda a forma, de imitar os nossos francezes, como depois direi.
Ao contrario os aldeões da nossa França estão de tal sorte enraisados em sua rusticidade, que, em qualquer conversação, embora nas cidades entre pessoas distinctas, sempre mostram signaes de camponezes.
Aos Tupinambás, depois de dois annos de convivencia com os francezes, estes lhes ensinaram a tirar o chapeu, a saudar a todos, a beijar as mãos, a comprimentar, a dar os bons dias, a dizer adeos, a ir á Igreja, a tomar agua benta, a ajoelhar-se, a pôr as mãos, a fazer o signal da Cruz na testa e no peito, a bater no peito diante de Deos, a ouvir missa e sermão, ainda que nada d’isto comprehendam, a levar o Agnus Dei, a ajudar o sacerdote á missa, a assentar-se á mesa, a estender a toalha diante de si, a lavar suas mãos, a pegar na carne com tres dedos, a cortal-a no prato, e a beber em commum, e breve farão todos os actos de civilidade e delicadesa, que se costuma a praticar entre nós, e já se acham tão adiantados a ponto de parecerem ter sempre vivido entre os francezes.
Ninguem pois poderá contestar-me, que não sejam estes factos bastante para convencer-nos do que devemos esperar e acreditar ser esta nação, com o andar dos tempos, civilisada, honesta e muito aproveitada.
Como os exemplos provam mais que outra qualquer especie de argumentação, vou contar-vos o caso de alguns selvagens educados em casa de nobres.
Actualmente ha em Maranhão uma mulher selvagem, de uma das boas raças da Ilha, que foi antigamente, quando bem pequena, tomada pelos portuguezes, e vendida como escrava á D. Catharina de Albuquerque, sobrinha do grande Albuquerque, Vice-Rei das Indias Orientaes, sob o dominio do Rei de Portugal, a qual reside presentemente em Pernambuco, e é Marqueza de Fernando de Noronha, ilha muito bella e fertil, segundo diz o Revd. Padre Claudio d’Abbeville na sua Historia.
Esta rapariga fez-se christã, e se a vestissem á portugueza não se poderia facilmente dizer qual a sua origem, se portugueza ou selvagem, mostrando sempre a vergonha e o pudor, inseparaveis de uma mulher, e occultando com cuidado a imperfeição do seo sexo.
Poderia dizer outro tanto de muitos selvagens, educados entre os portuguezes, e dos quaes alguns foram á França, e conservam ainda hoje o que aprenderam, e o praticam quando se acham entre os francezes.
É novo entre elles o uso da barba e dos bigodes, porem como vêem esse uso entre os Francezes, tambem deixam crescer tanto uma como outra coisa.
Tem incomparavel aptidão para as artes e officios.