Não ha a menor duvida á respeito da qualidade do Religioso, a quem se confiou a direcção das missões do Maranhão, e não se comprehende como Berredo, antigo Governador da Provincia, que foi autoridade no Brazil, deo o titulo de Superior á Claudio d’Abbeville, que occupa na ordem hierarchica o lugar immediato ao digno Missionario director dos trabalhos.
Certamente era necessario que o Padre Ivo ja tivesse adquirido na Ordem credito inabalavel para que fosse preferido aos tres religiosos, seos adjuntos. Eram sacerdotes todos tres; como elle deram provas de possuirem solida instrucção, e o terceiro até, ja muito adiántado na carreira, por varias vezes tinha occupado certos empregos honrosos, signaes evidentes da consideração de seos superiores. O Padre Ambrosio éra alem d’isto dedicado com ardor á todas as obras de caridade, durante as calamidades dos ultimos annos do seculo, sendo muito conhecida sua bondade sempre em acção: suas prédicas fervorosas, bem acolhidas pelo povo, lhe grangearam o apellido de «Apostolo da França.»[M]
Tem a data de 12 de agosto de 1611 as Cartas de obediencia, que os Superiores deram ao Padre Ivo d’Evreux, e lhe ordenaram, que fosse embarcar-se no porto de Caucale n’um navio sob o commando de Rzailly, lugar-tenente do Rei.
Não devemos repetir aqui o que em termos percisos e apropriados contou Claudio d’Abbeville na primeira parte de sua narração a respeito dos pormenores da longa viagem dos missionarios até o Brazil, da separação forçada da flotilha, que os conduzia, e das peripecias d’esta navegação, que durou cinco mezes. O que porem podemos affirmar é que o Padre Ivo não soffreu somente o aborrecimento de uma viagem maritima, cujas difficuldades não se pode agora imaginar, e que aos cuidados de uma installação penosa vieram reunir-se fadigas imprevistas, e depois de desembarcado, dores pungentes, como fossem as que elle experimentou pela morte do digno Padre Ambrosio, e em seguida os soffrimentos provenientes de uma molestia, que o forçou a regressar, e da qual foi victima afinal.
Tudo isto foi narrado com simplicidade e dignidade por tão zeloso missionario, e sem duvida muito melhor do que o fariamos.
O que não disse o pobre Monge, cuja exquisita sensibilidade e admiravel resignação se revelam tantas vezes, foi o pezar, que experimentou quando vio, que da coragem imprudente de Pésieux resultou a morte d’este seo amigo, sem que o valor de Ravardiere podesse ser bastante para sustentar a Colonia; o que tambem não poude contar foi a perda das funcções de Superior da missão, que devia assumir antes do triumpho das armas de Jeronymo d’Albuquerque, e da expulsão definitiva dos francezes. Para explicar essas circumstancias, não mencionadas de forma alguma pelo digno missionario, é indispensavel fallar-se da situação administrativa em que então se achava o grande Convento da rua de Santo Honorato.
O Padre Leonardo, tão afamado entre seos irmãos de habito, em 1614 deixou de ser Provincial, e só poderia ser reeleito no anno de 1615. Foi substituido pelo veneravel Honorato de Champigny,[N] e com razão elogiam-se os melhoramentos de toda a natureza, a actividade, e especialmente a distribuição de soccorros caridosos, postos em pratica durante a sua administração.
N’esta epocha, um Religioso estrangeiro, natural da Escossia, e descendente de uma boa familia, attrahia a si os olhares de seos irmãos, e póde dizer-se até os da propria França, o Padre Archanjo de Pembroke, que veio substituir de alguma forma o Padre Angelo de Joyeuse.
Eleito Provincial em 1609, e não deixando depois d’isto d’exercer importantes encargos, foi este Capuchinho, logo depois da partida do Padre Ivo, nomeiado director dos missões nas Indias orientaes e occidentaes. Os motivos, que fizeram abandonar mais tarde a missão do Maranhão, não foram declarados, ou para melhor dizer, não existiam. Archanjo de Pembroke resolveo ir pessoalmente ao Brasil dar consideravel impulso á pequena missão, que alguns mezes antes havia sido derigida por Francisco de Razilly.
Para este fim escolheo onze religiosos, de cujo zelo podia confiar: infelizmente ignoram-se os seos nomes, e apenas se sabe que entre elles havia um historiador, cuja Narração, nos parece de facto perdida, por não ter sido possivel encontral-a, apezar de todas as pesquizas feitas com constancia e perseverança por muitos mezes em Pariz, Ruão e Madrid.[O]