NONO PRINCIPIO.

§ 48. As Duas Cores primitivas, que residem na luz, se manifestaõ pela descomposiçaõ, que a mesma luz padece urtando os corpos naturaes: e todas as outras Cores, de qual quer genero que sejaõ, resultaõ da differente combinaçaõ das duas primitivas, nascida das diversas refracçoens, com que a luz se modifica, tocando a superficie dos corpos.

§ 49. Com estes simplez, e naturaes principios, fundados todos sobre exactas observaçoens, naturaes analogias, e repetidas experiencias, se explicaõ todos os phenomenos das Cores. O Prisma, o Iris, o pescoço da Pomba, a cauda do Pavaõ[24] &c., saõ phenomenos identicos, que resultaõ da mera descomposiçaõ da luz, nascida da differente contextura das partes, de que se compoem a quelles corpos.

§ 50. Athequi a Synthesis da Natureza. Passemos agora a ver como a Arte com as duas Cores primitivas, e quatro outras que dellas immediatamente se derivaõ, póde formar todas as Cores necessarias para, em qualquer genero de trabalho colorido, se imitarem as decoraçoens do Universo.

SECÇAÕ SEGUNDA,
QUE CONTEM A SYNTHESIS ARTIFICIAL DAS CORES.

§ 51. A Sabia Natureza só com as duas Cores primitivas, que residem na luz, e se variaõ ao infinito, por meyo de huma prodigioza combinaçaõ, nos faz ver todos os corpos de differentes especies, coloridos diversamente. A Arte porem, menos poderosa que a Natureza, tem necessidade, para imitar as suas admiraveis obras, de quatro outras Cores, nascidas immediatamente da quellas duas; isto he do Azul, que vem do Vermelho; e do Amarelo, que se produs do Verde; do Negro, que consiste na soma do Vermelho, e Azul, do Verde, e Amarelo; e do Branco, que se manifesta pela divisaõ destas mesmas Cores: de sorte que a Natureza executa, em hum instrumento de duas cordas, toda a harmonia das Cores, que a Arte só póde executar em hum de seis.

§ 52. A formaçaõ das Cores consiste em hum simplez, e puro mechanismo. Mudar a superficie dos corpos, ou alteralla, he o mesmo que mudar, ou alterar a Cor dos mesmos corpos. Mudada a contextura, muda-se a refracçaõ, e muda-se a Cor.

§ 53. Os Corpos ou tem a mesma contextura, em toda a sua massa, ou só na sua superficie. Hum cubo de marmore branco, partido em pedaços, mostrará sempre a Cor branca; mas hum pedaço de páo branco tingido de vermelho, se o fendermos, nos prezentará interiormente a sua Cor branca, e natural; e a alteraçaõ, que se tinha feito na sua superficie, applicando-lhe a Cor vermelha, fazia que toda a massa apparecesse desta Cor, sendo realmente branca.

§ 54. A Arte de Colorir naõ se versa senaõ a respeito das Cores superficiaes; e he o modo de achar toda a sorte de Cores, ou de mudar toda a sorte de superficies, que faz a materia desta secçaõ.

§ 55. O Mechanismo das Cores se contem da [Taboa I]. athe [XIII]. das quaes a explicaçaõ he a seguinte.