16. Os Corpos lucidos podemos considerallos, como outros tantos centros de immensas espheras de Luz; pois que a propagaõ em todas os direcçoens. O Sol he igualmente visivel, das duas oppostas extremidades, do vastissimo Orbito de Herschel; e o fanal de hum navio he igualmente visto, de todos os que o circundaõ sobre a linha do horisonte. A Luz, encontrando na esphera da sua actividade hum Corpo opaco, he por elle reflectida à os nossos olhos, e excita em nós a idea desse Corpo, formando-nos a sua pintura na retina. E como os Corpos saõ visiveis de todas as partes, a Luz deve ser reflectida por elles em todas as direcçoens. Assim os Corpos opacos tambem se devem ter, como huns centros de Luz reflectida, que delles se propaga em todas as direcçoens, que os mesmos Corpos saõ visiveis.
17. Mas, dos Corpos lucidos à os opacos, ha huma consideravel differença, a qual consiste, em que os primeiros naõ tem sombra alguma de si mesmos, sendo os centros absolutos de outras tantas espheras de Luz propria, que delles parte ao mesmo tempo: em lugar que os segundos, naõ sendo, que centros parciaes de huma Luz precaria, a reflectem só de huma parte da sua massa, proporcionadamente á incidencia dos rayos de Luz, que recebem dos Corpos lucidos; ficando a outra parte obscurecida com a sua propria sombra.
18. Tal he o caso de Mercurio, de Venus, e da Lua, na sua opposiçaõ, ou na sua conjunçaõ com o Sol. No primeiro caso, estes Planetas nos reflectem a Luz, que recebem do grande Luminar, e nos deixaõ ver ametade da sua massa illuminada. No segundo caso, porem, interceptando a Luz do Sol, nos presentaõ a parte obscurecida, com a sua propria sombra, a qual se distingue bem, quanto a Mercurio, e Venus, quando passaõ pelo disco do Sol; e quanto á Lua, ou poucos dias antes, e depois da sua conjunçaõ, ou quando nos eclipsa a Luz do Sol. Mas basta de preliminares; passemos ao nosso Ponto.
Dos Prismas, e das Prismaticas experiencias.
19. Quando as pequenas partes, de que a Luz se compoem ([n. 2]), cahem sobre qualquer Corpo opaco, e saõ por elle reflectidas a os nossos olhos, naõ só nos excitaõ a idea da figura desse Corpo, dessenhando-no-la na retina ([n. 16]); mas tambem no-la-pintaõ, com huma quasi incomprehensivel, e harmonica variedade de bellissimas, e differentes Cores. Mas, de todas estas, as mais vivas, e resplandecentes saõ, as que nos offerecem as experiencias do Prisma.
20. Prisma, geometricamente fallando, he hum solido, do qual duas faces oppostas saõ dous planos iguaes, e parallelos, sendo todas as outras faces parallelogrammos. Chama-se Πρισμα, Prisma, do verbo Grego Πριω, que significa serrar, ou cortar: e effectivamente o Prisma he huma figura truncada, que parece o segmento de outro Corpo. Porem, relativamente á Luz, e ás Cores, o Prisma he hum instrumento triangular, de grandeza indefinida, e de huma materia diaphana, pelo qual se observa, ou hum Ponto lucido, em hum ambiente escuro; ou hum Ponto escuro em hum ambiente lucido.
21. Estes Prismas saõ, ordinariamente, feitos de crystal branco; mas como he dificil o achallos desta materia, bastantemente grandes para se fazerem as experiencias, podem se os mesmos compor de vidros brancos, lizos, e delgados, unindo-lhes as junturas com betume, e enchendo-os de agoa pura, ou colorida, segundo o genero das experiencias, que se quiserem fazer.
22. Eu os fiz construir de todas as figuras, e com angulos de 10 gráos athe 90, mas a experiencia me mostrou, que os melhores Prismas, para observar, saõ os triangulares equilatros. Os de 45 gráos, ainda saõ bons. Os de angulos menores, naõ mostraõ bem as Cores: e os que excedem 60 gráos, ainda que mostraõ as Cores mui vivas, e fortes, desfiguraõ os objectos, curvando muito todas as linhas direitas.
23. Os Prismas, com que fiz as minhas experiencias, eraõ feitos de vidros brancos, lizos, e delgados, unidos com betume de cera, e resina; e da figura, grandeza, e cor seguinte.
Primeiro. Equilatro triangular, de 6 polgadas de comprido; e os parallelogrammos, de duas de largo; cheyo de agoa crystalina.