PORTO
IMPRENSA PORTUGUESA
Rua do Bomjardim, 181
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1876
ALGUMAS PALAVRAS
Historia, segundo Cesar Cantu, é a narração dos factos considerados verdadeiros. Tem por fim a verdade, porque, no conceito de Alexandre Herculano, encarrega-se de averiguar qual foi a existencia das gerações que passaram.
Não deve porém considerar-se tam seria e limitada a periferia do romance. O romance póde ser tambem a reproducção e apreciação dos eventos e phenomenos sociaes subordinados a uma certa ordem chronologica e a uma classificação methodica; mas, porque tem menos responsabilidade, concedem-se-lhe mais fóros de liberdade e licença do que a esse grande e solemne registo publico chamado historia.[{6}]
Pennejar-se conseguintemente um romance com todas as prescripções historicas, é obrigação que a critica nem o bom senso exigem. O romance, não querendo asphixiar os seus leitores em um ambiente de opio e monotonia, apenas aproveita da historia o fundo e a base: as datas e os factos cardinaes. Em quanto aos contornos e ás linhas e ás côres, aos personagens ainda e ainda ao dialogo e á urdidura, usou sempre, seja elle engenhado por Walter Scott ou seja devido á imaginativa de Alexandre Dumas, de facil e plena liberdade. Mais ainda do que louçanias e filigranas de estilo se reclamam, para repasto da curiosidade, os meandros e caprichos da phantasia. Só por imposição de estranho despotismo se deve sugeitar a contextura do romance historico a toda a fidelidade ethnologica e a todo o rigor dos acontecimentos. A narrativa e apreciação dos factos considerados verdadeiros—a historia—não podem associar-se de nenhum modo aos partos da imaginação e aos caprichos da phantasia—o romance.
Comprehendendo-se portanto a differença que faz a historia, propriamente sciencia natural, do romance, simplesmente exercicio litterario, não se deve estranhar a maneira como pensei e escrevi. Sem o auxilio da imaginação como se conseguiria entreter a curiosidade e passar o tempo no decurso de algumas dusias de paginas com as descripções dos obscuros successos dos dous seccos e aridos annos de 1553 e 1554?
É coisa natural que eu bastantemente abusasse das[{7}] liberdades de romancista. Por exemplo, do meu livro translusem o caracter e a phisionomia de Simão Rodrigues com menos vantagens e virtudes do que as que lhes foram munificamente abonadas pela tradição e pela escriptura. Disse-se do celebre discipulo de Ignacio de Loyola que morreu (15 de julho de 1579) com acrisolados sentimentos de religião. Nada o assombrava nem esmorecia quando se tratava do serviço de Deus, sabendo sempre em sua vida manifestar os mais austeros principios de abnegação e dando em todos os seus actos os mais louvaveis exemplos de sabedoria.
Egualmente a indole e os costumes de Dom João III não se descortinam em painel que satisfaça as exigencias da critica e o rigor da verdade. Será Dom João III o monarcha fanatico e frouxo retratado com as tintas sombrias da palheta de Alexandre Herculano, ou antes o principe virtuoso e prudentissimo que, segundo os annaes louvaminheiros de Frei Luiz de Sousa, foi, sem a nenhum fasermos aggravo, um dos primeiros entre os que louvamos de grandes e excellentes virtudes?
Emfim referem os chronistas que o joven esposo da infanta de Castella, essa princesa não pouco memorada pela energica protecção com que mais tarde ensoberbecera o animo pusillanime de Christovam de Moura, falleceu de enfraquecimento phisico dous meses depois do seu faustoso matrimonio. Eu faço-o padecer no leito frio da morte os effeitos inclementes do veneno!