O pagem não se intimidou, porém. Deu maior volume á voz e com o seu placido gesto exprimiu-se ainda:
—Não encareço as vossas virtudes nem culpo os vossos vicios, monarcha Dom João; mas[{63}] sempre vos imputarei a responsabilidade dos tremendos crimes que se commettem na vossa côrte...
—Crimes na minha côrte! bradou o monarcha portuguez ao erguer-se da cadeira como impellido por uma secreta mola.
—Admiro, replicou immediatamente a rainha Dona Catharina, que ainda não vos dissessem que tentaram hontem assassinar vosso irmão o infante D. Luiz.
Á inesperada revelação succedeo um momento de espanto e alvoroço. Quem não presaria em Portugal a vida do infante? Presavam-na deveras assim fidalgos como peões e por isso ninguem havia entre os nobres commensaes que se não sobresaltasse com a nova de que a vida de Dom Luiz de Beja correra imminente risco.
—Fallae agora vós, meu irmão. Por acaso premeditaram alguns sicarios contra a vossa vida?
—Tentaram na verdade, placidamente respondeo a el-rei o infante Dom Luiz. Hontem por alta noite fui eu acommettido por tres bandidos[{64}] e de certo dos seus punhaes seria victima innocente se me não acode aquelle generoso pagem.
—Graças dou a Deus, volveu el-rei, por haverdes escapado do perigo. Mas que foi feito dos assassinos? Justiça rigorosa se fará, meu presado irmão.
—Justiça rigorosa vol-a reclamo eu! solemnemente bradou a rainha.
—Justiça! justiça! conclamaram todos os convivas.