São o padre mestre provincial Simão Rodrigues e o celebre Conde da Castanheira, esse poderoso valido que grangeara famas de que «n'aquelle tempo ninguem se lhe avantajava nas partes de conselho e maduro juiso[[11]]».

—Juro-vos, estava asseverando o jesuita, que nada se descobrio. As palavras d'esse estonteado badage motivaram-nas os vapores do vinho.

—O mesmo acredito eu, accrescenta o conde. A noite corria escura e a empresa foi commettida a gente de confiança...

—Mas, interrompe el-rei, não me disseram[{67}] já que o attentado se baldou por artes do diabo ou por manhas de quem quer que fosse?

—Verdade é, responderam ambos ao mesmo tempo.

—Em tal caso facilmente se poderia descobrir tudo...

—Os aggressores, acode o jesuita, acautelaram-se bem. Os chapeus e os capotes deram-lhes panno de sobra para cobrirem as barbas e, quando chegou o diabo, todos debandaram com prudencia.

—Tal accommettimento ha de ser sempre o dessocego do meu espirito! desabafa el-rei.

—O bem do estado assim o reclama, volve por sua vez o conde.

—Dizes, conde, que o bem do estado nos moveu... O bem do estado seria, mas porventura não peccamos nós contra os mandamentos da santa religião? Receio, meu padre, o castigo da Providencia!