—Pardés, assim ousaes chalrar com tal desassombro! prorompe o valeroso conde carregando o sobrolho.

—Fallo a verdade sem rebuço e mais direi ainda se el-rei me permitte a ousia de fallar.

—Sei que és ave de mau agouro; mas conta-nos tudo, conta-nos tudo! volve o monarcha em profundo estado de abatimento moral.

—Pois sempre vos direi, meu rei e senhor, que propinaram veneno a vosso filho o principe Dom João!

Cahio o monarcha na poltrona como se padecera os effeitos fulminadores de um raio.[{70}]

Assim alguns momentos se demorou em uma especie de glacial insensibilidade sem que o jesuita e o conde se atrevessem a interromper o silencio. Por fim ergueu-se tremulamente o monarcha e, não descobrindo já o destemido badage, perguntou com voz desfallecida:

—Que é feito do pagem?

Olharam os dous validos para todos os recantos do gabinete, mas já não avistaram ninguem.

Não quiz el-rei que d'elle fossem em procura e, dirigindo-se para os seus validos, lhes exprobra com friesa:

—Ahi tendes a vossa obra... Ahi tendes o castigo da Providencia! Quiz Deus punir-me com a morte de meu filho, esse innocente filho que sobre todas as coisas eu queria e presava. Mas ai de vós, senhores, ai de vós e de mim se elle morre!