Entrou o pagem n'esta occasião e pé ante pé[{86}] dirigindo-se para o lado esquerdo da rainha, fitou-a com olhares de poetica melancolia.

—Estimo ver-te, pagem. Tenho passado aborrecida e será muito do meu gosto ouvir contar alguma façanha alegre. Sempre me dirás o que tens feito...

—Nem tudo se diz, senhora.

—Sempre te conheci mysterioso. Mas agora, meu pagem, lembra-te de que estás ao pé de quem deveras te estima...

—Sei reconhecer a vossa amisade, senhora. O pobre pagem deixar-se-hia estrangular pelas garras de um tigre só para vos compraser. Não faseis ideia da minha dedicação, não podeis medir a grandesa do meu amor!

A rainha estremeceu levemente como se a ferisse a ponta de um alfinete.

—Por ventura me tens amor? assim o interrogou com um sorriso jovial.

—Juro-o pelos Vedas.

—Mas não reparas nos meus annos? Não vês claramente que já sou velha!

—Uma rainha nunca envelhece. É uma eterna primavera de florescencia e de perfumes.[{87}]