—Desempenho á risca as ordens que me dão. Para isso me sustentam e pagam.

—Então se te dissessem—estrangula tua irman e assassina tua mãe! tu, em obediencia á malvadez do amo, julgarias cumprir com o teu dever?[{107}]

—Por Deus que ninguem me obrigava a tirar a vida a meus irmãos ou a meus paes!

—Mas supponhamos que assim acontecia...

O carcereiro experimentou uma ligeira contracção de nervos, estendeu com gestos de ameaça terrivel os braços musculosos e regougou em bruscos termos como se disposesse da voz do trovão:

—Eu, escravo, em caso tal arrancaria com estas garras de hyena a lingua do meu amo!

—Não te fallece por tanto uma certa intuição do bem e do mal. Por instincto ou rasão natural, sempre dispões de uma certa faculdade pensante que te diz não ser infinita a orbita dos teus deveres servis. Reconheces em summa que o universo é maior...

—Não comprehendo bem. Um desastrado carcereiro não póde saber de letras nem sabe o que são ideias. É um cão de fila a quem disseram: guarda esse rebanho e no fim de cada mez receberás as gorduras de uns tantos ossos. O cão desempenha cada dia o seu serviço de guardar e jámais se importa que o rebanho seja de ovelhas limpas e alfeiras ou bravias e tinhosas. Obedece á voz de quem manda.[{108}]

—Mas porque obedeces tu?

—Porque me pagam.