—Ah, tambem tens familia?
—Quem não tem familia, meu fidalgo?
—De certo não sabes quem eu sou. Eu vivo sem paes, sem irmãos e sem parentes. Disem que sou um christão novo! Sou talvez um apostata,[{109}] um reprobo, um paria! Vivi por longo tempo na innocencia e no socego dos sertões. Meus paes e meus parentes nutriam-se dos cachos das palmeiras, com todo o fervor das suas almas fasiam as suas orações no templo de Trichandur e as tempestades da desgraça jámais varreram tanto o repouso do seu corpo como as crenças do seu espirito. Mas um dia[[13]] nos mastareus de enormes galeões appareceu arvorada a bandeira lusitana n'esse grandioso imperio onde[[14]] as plantas são fructos, as aguas perolas e as pedras preciosas. Esta bandeira significava o symbolo da fé; era o labaro da paz e da fraternidade. Por isso de todas as cidades e aldeias se receberam os companheiros de Vasco da Gama como irmãos e amigos. Estabeleceu-se a troca dos generos, entabolaram-se todas as transacções commerciaes, vendiam-se pelos brocados de seda e pelos tecidos de lan ou de algodão o coral e o marfim, as perolas e o ouro, a canella e toda a casta de especiarias. Mas, ah, depressa a cobiça das riquesas transtornou a paz e a ventura das Indias! Em vez da troca e dos contractos[{110}] mercantis, os portugueses foram preferindo as dadivas e a vassalagem por não desmentirem que chegavam tam mortos de fome como vivos de cobiça[[15]]. Accendeu-se então por toda a parte o facho da guerra e da discordia. Familias inteiras perderam a fasenda e a liberdade, povos inteiros perderam a familia e a existencia. Não te farei a resenha dos roubos e das violencias, dos combates e dos incendios. Basta saberes que foi assim que eu fiquei só no mundo: sem patria, sem dinheiro e sem amparo...
—Uum, uum! Não sei se acredite o que me diz, atalhou o carcereiro. Não acredito de certo. Vossa mercê ou vossa senhoria é mais do que inculca ou inculca mais do que é.
—Então que favoravel ou ruim ideia fases de mim?
—Imagino que seja algum fidalgo poderoso.
—Não sou fidalgo.
—Pelo menos algum conde...
—Enganas-te.
—Meu senhor, ninguem, sem que seja de altas[{111}] hierarchias e de singular poderio, gosa da honra de entrar aqui. Para simples peões não foram feitas as seguras grades e as grossas paredes que sustentam estas abobadas.