—Vaes sabel-o já...[{112}]
—Pois quem é, quem é?
—Alguem é.
—Mas quem?
—Simão Rodrigues!
O carcereiro poz-se a matutar por alguns momentos. Depois aventurou dous passos ao longo do calabouço, estalejou emfim com a mão direita uma palmada na testa e disse pausadamente:
—Na verdade o jesuita é poderoso. Vale mais em forças e poderio do que um duque...
—Mais que o monarcha. O monarcha tem a corôa na cabeça e o sceptro na dextra; mas isso tudo não passa das vans insignias da realesa. Vale menos o manto de terciopello do que o saio de estamenha. Perante a vontade inquebrantavel de Simão Rodrigues tudo averga e affrouxa como o vime, se quebra e desfaz como o vidro. Elle governa o estado em nome da igreja; em nome da religião escravisa a nobresa e o povo, essa cohorte de hebreus sempre amaldiçoada pela igreja. Tudo lhe obedece piamente e é el-rei o primeiro escravo que lhe obedece...[{113}]
—Assim é, assim é.
—Todavia Simão Rodrigues teme e reconhece a força e as traças de alguem...