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X

VANTAGEM DE DOUS CONTRA UM

Preparava-se o badage para se escapulir do carcere quando o homunculo, em attitude de lhe embargar a passagem, desfechou das suas guelas herculeas uma estridente cascalhada de riso.

—Meu fidalgo, regougou elle, julga que eu seja de animo tam simplorio que lhe favoreça a escapula sem primeiro arrecadar no bolso os mil ducados promettidos por vossa senhoria? Pardés que me rio com vontade, meu fidalgo!

—Fallas com prudencia e siso. Quem deve, paga. Eu, em troca da minha liberdade, devo dar-te 1:000 escudos. Devo-te portanto 1:000[{116}] escudos em ouro ou prata. Mas esse dinheiro, embora seja em perolas de Ceylão ou em ouro de Ophir, difficilmente se arrecada no bolso do gibão.

—Pois, meu fidalgo, teremos o contracto desmanchado... Demais, quasi estou repeso do que fiz. As más acções produsem o effeito da ferrugem nos metaes: fasem mossa na consciencia. Porventura merecem os meus amos que os atraiçoe? Pagam pouco, é verdade. De que valem 150 crusados? De que valem elles? Uma ninharia que não chega para a cova de um dente e não é preciso que o dente seja de elefante. Mas emfim sempre me pagam...

—Percebo, percebo. Sabes que mais val um passaro na mão do que dous a voar. Dá cá, toma lá. Não é isso? Pois eu vou satisfaser os teus desejos.

O badage pediu um tinteiro e sobre meia folha de papel escreveu com letra maiscula o seguinte bilhete:

«Dona Catharina de Austria, rainha de Portugal, entregará ao portador a quantia de mil ducados em ouro ou prata. Do cárcere da inquisição[{117}] do Rocio, aos 29 de desembro de 1553. Pedro, o pagem.»