—Nada receeis, meu nobre irmão...
Dom Luiz quedou em silencio. Ou a voz se[{17}] lhe prendeu nas fauces ou o respeito o fez calar. Com porte severo e imponente apresentava-se-lhe de subito o muito alto e poderoso rei de Portugal e dos Algarves, sua altesa serenissima o senhor Dom João III.
Era para Dom Luiz das mais solemnes e apertadas semelhante situação. Antes mil veses se quisera em luta encarniçada com os mouros de Asamor ou com as hordas do samorim de Calicut. Dom Luiz de Beja, Prior do Crato, digno infante de Portugal e esforçado filho de Dom Manuel foi havido sempre no consenso publico por cavalleiro valeroso e destemido. Em provas de coragem não no excederam os Pachecos nem os Albuquerques e ninguem com mais galhardia soube ainda no officio das armas brandir uma lança ou empunhar uma espada. D'elle recontam chronistas e historiadores que principe nenhum soube dar-se ao respeito melhormente ou faser em sua vida com que o amassem tanto. «O amor que os portugueses lhe tinham passava a idolatria. Adornavam-no todas as partes que podem fazer-se credoras da estima dos homens. Era nobre e generoso, compassivo e[{18}] valente, affavel e tam ousado que passava a destemido.
«A estas gentis condições andavam annexas muita mansidão na sociedade e rara prudencia nos negocios. Era guapo e bem feito; sensivel, terno e deveras affeiçoado ao trato das senhoras.
«A fama das suas boas partes moraes e phisionomicas voára até os paizes estrangeiros. No serralho do xerife de Marrocos grangeara grande estima e uma das suas filhas morria de amores por elle. Todas as veses que a nobre donzella encontrava Dom Diogo das Torres, captivo a quem se facultava entrada livre no palacio por ser protegido de Muley Abel Mumen, irmão do xerife, nunca se fartava de fallar-lhe no infante. Um dia que passeava nos jardins do palacio viu Dom Diogo e chamou-o para lhe diser: «Colhei de aqui algumas flores e tecei com ellas uma corôa semelhante ás que trasem os principes christãos». Obedeceu Dom Diogo das Torres e cuidou de offerecer-lh'a. Tomando-a então e pondo a corôa na cabeça encantadora, ella lhe disse: «Permittam os ceus que eu algum dia viva unida com o infante Dom Luiz como sua[{19}]esposa e que, sendo elle o rei, eu seja a rainha de Portugal![[5]]»
Mas agora a conjunctura não demandava feitos de valor nem proesas de galanteria. Atrevera-se Dom Luiz entrar a sós em aposentos que apenas não eram vedados á pessoa do monarcha portuguez: a alcova nupcial de Catharina de Austria, essa virtuosa irman do Cesar das Espanhas, o victorioso imperador Carlos V!
Mal decorreram alguns instantes quando se voltou el-rei para sua esposa a diser-lhe pausadamente e com um sorriso glacial:
—Deveis desculpar-me, senhora, o vir interromper-vos nos vossos galanteios. Por Deus que vos dou uma lição que vos deve servir para de outra vez terdes em mais recato o pudor e a honra de uma rainha; mas sempre se desculpam os maus humores de um esposo e por isso espero de vós que não tomeis a mal a minha presença.
Ás veias da orgulhosa princesa de Castella refluiu todo o sangue celta da raça de seu pae[{20}] Filippe I, aprumou o seu bello pescoço de garça como se nada houvesse que temer, fitou firmemente com um olhar de aguia o semblante pallido de Dom João III e de prompto impugnou com a austera dignidade de uma rainha:
—Jamais tive galanteios que não fossem para vós, senhor meu esposo!