Desaparecida esta vizão ficou mui consolado D. Egas Moniz, e alegre, como vassallo que com são, e verdadeiro amor amava seu Senhor, e suas cousas, e tanto que foi manhã levantou-se logo, e foi-se com gente áquelle lugar, que lhe fora dito, e mandando hi cavar achou aquela Egreja, e Imagem pondo em obra todas as cousas que lhe N. Senhora mandára. Á qual aprouve pela sua santa piedade, tanto que o Menino foi posto sobre o seu Altar, ser logo guarecido, e são das pernas de toda aleijão, como se nunca tivera nada della.

Vendo D. Egas este tão grande milagre, foi muito o seu prazer, deu muitas graças, e louvores a Deos, e a Nossa Senhora sua Madre, criando, e guardando dahi avante com muito maior cuidado o Menino, cujo Aio foi sempre, até que seu pai morreo em Estorgua, sendo elle já de tal idade, que nas guerras, e fadigas supria os carregos de seu pai. E por causa deste milagre foi depois feito em esta Egreja com muita devação o Mosteiro de Carquare; e como quer que alguns contem seu nacimento ser ultra mar, e bautizado no Rio do Jordão, porém por mais verdade achei ser seu nacimento como disse.

CAPITULO IV

Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a seu filho ante que falecesse.

Era este Conde D. Anrique mui nobre, e esforçado cavaleiro, muito amador da Justiça, e a temor de Deos mui chegado, e elle com grande devação fez a Sé de Coimbra, e de Braga, e do Porto, e de Vizeu, e Lamego, e pôz em ellas Bispos, que as houvessem de reger por mandado, e licença do Santo Padre. Em este tempo andando a era de Nosso Senhor de mil cento e trez, (1103) foi este Conde D. Anrique a ultra mar á Caza Santa de Jerusalem, conquistada havia quatro annos de Christãos, novamente pelo Duque Gudufre de Bulhão, quatro centos e noventa annos depois que em tempo de Mafamede, e do Araclio Emperador foi tomada a Christãos, e possuida de Mouros, e quando de lá veio trouxe este Conde muitas reliquias de Santos, entre as quaes foi um braço de S. Lucas Evangelista, que por filho del-Rei Dungria, e fama de sua grande bondade, e cavalarias lhe foi dado em Constantinopla, e a rogo de S. Giraldo que então era Bispo de Braga, deu parte delle á Sé da dita Cidade, o qual elle recebeo em mui grande dom, e o pôz com outras Reliquias da Egreja, e depois que assi o Conde D. Anrique veio de Jerusalem não lhe cessaram guerras com os Lionezes, e ganhou-lhes muita terra até chegar a Estorgua, a qual tendo tomada, e metida sob seu senhorio, dali os guerreou fazendo continuamente muitas cavalgadas pela terra estragando-lhes pães, e vinhas, matando, e prendendo muita gente delles, com que os pôz em tanto aperto, que se lhe não podiam defender, e lhes foi forçado preitejarem-se por esta guiza, que se El-Rei D. Affonso de Castella seu primo chamado Emperador, lhes não soccorresse até quatro mezes, elles lhe entregassem a Cidade de Lião com todas as rendas, e senhorio que El-Rei nella tinha. E tendo-a assi preitejada veio o Conde a doecer de modo, que bem conheceo não haver nelle vida. Pelo qual vendo-se elle em tal ponto chamou seu filho D. Affonso Anriques, e lhe fez uma falla muito de Cavaleiro entendido, e esforçado em esta maneira.

«Filho esta hora derradeira que me Deos ordena para te haver de leixar com a vida deste mundo me faz, que te veja, e fale com dobrado amor, e sentido do nosso apartamento, e por esso assenta em teu coração minhas palavras como de pai a quem após estas já não has douvir outras. Deves filho de saber, que o poderio que o Senhor Deos neste mundo ordenou de alguns Princepes sobre outros sometidos a elles foi por tal, que os máos sejam constrangidos, e os bons vivam entre elles em paz, e assocego, porque conservação é dos bons, e pungimento dos máos, pelo qual filho more sempre em teu coração vontade de fazer justiça, virtude é que dura para sempre na vontade, e corações dos justos, e dá igualmente seu direito, que é o maior louvor, e merecimento que os Principes em seu regimento podem alcançar, que todo o governo, e bem commum consiste principalmente em duas cousas, a saber: em premio, e em pena; e assi como os bons pela justiça se fazem milhores recebendo premio, e galardão de suas boas obras, assi os máos vem a ser bons, ou a menos cessam de seus males com receo da pena, e por tanto faze filho sempre como hajam todos direito assi grandes como pequenos, e nunca por rogo, nem cobiça, nem outra nhuma afeição leixes de fazer justiça, que o dia que um só palmo a leixares de fazer logo no outro se arredará de teu coração uma braçada.

«Trabalha-te muito de saber se os que tem teu carrego fazem justiça, e direito compridamente, e se a fizerem, faze-lhe compridamente bem, e mercê, e se o contrario, dá-lhe pena segundo seu merecimento, por os outros tomarem castigo, não consintas em modo algum, que os teus sejam soberbos, nem atrevidos em mal fazer, que perderás teu preço, e estimação se taes cousas não vedares; mas segue todavia justiça temendo, e amando muito a Deos, para que sejas dos teus amado, e temido, tendo Deos em tua ajuda, terás as gentes para teu serviço, e sem ella não ha poder, nem saber que te aproveite, de sua mão somos isso que somos, e o que temos não teriamos, se da sua mão, e bondade o não tivessemos, e portanto trabalha-te por conservar em seu serviço. O que tiveres, e de toda esta terra que te eu leixo Destorgua até Lião não percas della um palmo que eu a ganhei com grande fadiga e trabalho. Toma filho do meu coração um pouco; porque sejas esforçado, e sem medo: aos fidalgos sê companheiro, e dá-lhe dos teus dinheiros, e aos Conselhos faze gazalhado, e trata bem, e chama agora estes Destorgua, e mandarás que te façam logo menagem da Villa, e des que me levarem a enterrar logo te torna, e não a percas, e daqui conquistarás toda a outra terra adiante, ou manda-me com alguns meus vassalos, e teus que me vão enterrar a Santa Maria de Braga, que eu povoei. Tudo esto filho faze assi com a minha benção; porque sejas como filho de benção a serviço de Deos com muita honra prosperada».

CAPITULO V

Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi Dona Tareja.

Desta doença se veio a finar o Conde D. Anrique em Estorgua dous mezes, e cinco dias antes que o prazo de Lião fosse acabado. Seu finamento foi no anno de nosso Senhor de mil cento e doze, (1112) e tanto que elle faleceo logo seu filho D. Affonso Anriques ficando em idade de dezoito annos se fez chamar Principe, dando ordem como o corpo de seo pai fosse mui honradamente levado a Santa Maria de Braga onde se mandara lançar, e perguntou a seus vassallos se iria com elle a seu enterramento, ou se ficaria, e elles disseram que fosse com seu pai, e o honrasse, nem por isso temesse nada da terra, porque obrar virtude nunca deu a ninguem perda, e então se foi com seu pai; porque mais honradamente fosse enterrado, e em quanto assi foi com elle tomaram-lhe toda a terra de Lião que elle tinha por sua, e a terra de Galiza lhe ficou que lha não poderam tomar. Quando elle vio a terra tomada mandou desafiar a El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador seu primo com irmão filho do Conde D. Reymão de Tolosa, e de Dona Urraca irmã de sua mãi a Rainha Dona Tareja, mas logo foram reconciliados, e amigos, e então se foi a Portugal, e não achou onde se acolhesse: porque toda a terra se alçara com sua mãi a qual cazou com D. Vermuy Paes de Trava, e depois D. Fernando Conde de Trastamara seu irmão delle lha tomou, e cazou com ella, e D. Vermuy Paes cazou depois com uma filha desta Rainha D. Tareja, e do Conde D. Anrique já finado, que elle tinha em sua casa, que chamavam Dona Tareja Anriques, e por este peccado foi feito em Galiza um Mosteiro chamado de Sobrado. Outra filha ficou do Conde D. Anrique, que havia nome D. Sancha que foi cazada com D. Fernão Mendes. Este Conde D. Fernando de Trastamara acima nomeado, era naquelle tempo o maior homem de Espanha que Rei não fosse, e por esta causa se alçou toda a terra ao Principe D. Affonso Anriques com sua mãi.