Como o papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles se passou em Coimbra.
Quando as novas chegaram ao Santo Padre de como El-Rei D. Affonso Henriques não queria obedecer a suas cartas e mandados para soltar sua mãi, e fizera assim aquelle Bispo da maneira que se disse, o Santo Padre, e toda a Côrte, teve que elle era Herege, e propozeram de lhe enviar um Cardeal, que o ensinasse e mostrasse a fé, e corrigisse de quaesquer erros que tivesse. O qual veio pelas Côrtes dos Reis de Hespanha, que sahião a recebe-lo mui honradamente. E vindo já o Cardeal perto de Coimbra onde El-Rei estava, vieram alguns fidalgos a El-Rei e disserão-lhe: «Senhor, aqui vos vem um Cardeal de Roma por estardes em desprazer e descontentamento do Papa por este Bispo que fizestes.» Disse El-Rei. «Ainda me não arrependo.» Elles proseguindo mais avante pela nova do Cardeal, disseram: «Senhor, todos os Reis por cujas terras vem, segundo se diz, lhe fazem quanta honra podem, e provão para lhe beijarem a mão.» Disse então El-Rei: «Não sei Cardeal nem Papa que a Coimbra viesse, e me tendesse a mão para lh'a beijar em minha casa que lhe eu não cortasse o braço pelo cotovello com esta espada, e disto não podia escapar.»
Estas palavras soube o Cardeal em chegando a Coimbra, e tomou grande receio, e El-Rei não quiz sahir fóra a recebê-lo. O que logo o Cardeal teve a máo sinal, e portanto em chegando se foi direito a Alcaçova onde El-Rei pousava. Alli o recebeo El-Rei mui bem e disse-lhe: «Pois, Cardeal, a que viestes a esta terra, ou que riquezas me trazeis de Roma para estas hostes que tão a miude faço de dia e de noute contra Mouros? Dom Cardeal amigo? Se vós por ventura me trazeis algo que me dês, dai-mo, e se me não trazeis nada, tornai-vos vossa via.» «Senhor,» disse o Cardeal: «Eu sou vindo a vós da parte do Santo Padre para vos ensinar a fé de Christo.» Respondeu então El-Rei: «Certo assim temos nós outros cá bons da fé nesta terra como vós lá em Roma, e portanto bem sabemos como o Filho de Deos encarnou na Virgem Maria e della nasceo, e isto por obra do Espirito Santo, e como morreo na cruz por remir a geração humanal e descendeu aos infernos, e ao terceiro dia resurgiu não mortal, e que o Padre e o Filho e o Espirito Santo são Tres Pessoas realmente distinctas em uma só essencia. Esta fé temos e cremos firmemente tão bem como vós lá em Roma; pelo qual não havemos por agora mister de vós outra doutrina nem ensino. Mas deem-vos agora essas cousas que houverdes mister, e de manhã, se Deos quizer, eu e vós fallaremos.»
Foi-se então o Cardeal para a pousada, e mandou logo pôr cevada ás bêstas, e tanto que foi meia-noute mandou chamar todos os clerigos da cidade e excommungou a cidade e todo o Reino, e cavalgou, e foi-se da guisa que ante manhã andou duas legoas.
CAPITULO XXIV
Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle passou.
Levantou-se El-Rei ao outro dia pela manhã, e disse a seus cavalleiros: «Vamos ver o Cardeal.» Disseram elles: «Senhor, ante manhã se foi daqui, e deixou excommungado a vós e a toda vossa terra.» Disse assim El-Rei: «Sellem-me á pressa tal cavallo:» e cingio sua espada, e cavalgou a grande pressa quanto pode após elle. Seguião-o todos, mas elle, segundo era melancholico, não quiz esperar por ninguem, e foi alcançar o Cardeal em um lugar que chamão a Vimieira, a par de Poiares, caminho da Beira, e como chegou a elle lançou-lhe mão do cabeção, e com a outra tirou a espada, e alçou o braço com ella, dizendo: «Dá a cabeça, traidor,» querendo-lh'a cortar. Disserão quatro cavalleiros, que ahi chegarão com elle: «Senhor, por mercê não queiraes tal fazer, que se matardes este Cardeal cuidarão de todo em todo que sois herege.» Disse então El-Rei: «Por essa palavra que ora dissestes, vós lhe daes a cabeça; mas pois assim é, disse El-Rei, Dom Cardeal, ou vós desfazei quanto fizeste, ou cá vos ficará todavia a cabeça.» «Senhor» disse o Cardeal «não me queiraes fazer mal, e toda a cousa que vós quizerdes eu a farei de boa mente.» «O que eu quero que vós,» disse El-Rei «façaes, é que descommungaes quanto excommungastes, e que não leveis daqui ouro, nem prata, nem bestas senão tres que vos abastarão, e mais que me envieis uma letra de Roma que nunca eu nem Portugal em meus dias seja excommungado, que eu o ganhei com esta minha espada. E isto quero de vós por agora, e porem vós deixareis aqui este vosso sobrinho filho de vossa Irmã, em prenda até que a letra venha, e se ella até quatro mezes aqui não fôr que eu lhe corte a cabeça.» A tudo, disse o Cardeal que lhe aprazia, e assim ficou de fazer. Então lhe tomou El-Rei quanta prata e ouro lhe achou e bêstas, e não lhe deixando mais de tres que levasse, e disse-lhe: «Ora, Dom Cardeal, ide-vos ahi vosso caminho, que este é o serviço que eu de vós quero, e todavia venha a letra.» E isto acabado ante que se o Cardeal partisse tirou El-Rei a capa pelle, e despio-se todo e mostrou muitos signaes de feridas que tinha pelo corpo e disse: «Cardeal como eu sou herege bem se mostra por estes signaes, que eu houve estas em tal peleja e tal, e estas em tal cidade ou villa que tomei, e todas por serviço de Deos contra os inimigos de nossa fé; e para isto levar adiante vos tomo este ouro e prata, porque estou muito mingoado e me faz mister para mim e para os meus.» Foi-se então o Cardeal, e El-Rei tornou-se a Coimbra. Por estas muitas feridas que El-Rei assi mostrou ao Cardeal, se póde conhecer quanto maiores forão seus feitos e valentia do que se achão escriptos, porque em nenhum cabo faz a historia menção que fosse ferido nem uma só vez de tantas nem em que lugar.
Mandou El-Rei logo um escudeiro á Corte de Roma a saber lá o mais encubertamente que pudesse que era o que o Papa e Cardeaes lá dizião delle por estas cousas que fazia. E o escudeiro partiu e andou de tal pressa que chegou primeiro que o Cardeal. A cabo de dias escreveu este escudeiro a El-Rei D. Affonso uma carta que elle mostrou e fez lêr a esses do seu Conselho, na qual dizia que quando o Cardeal chegára de Portugal, e o Papa soubéra como hia, lhe perguntou como passára com El-Rei D. Affonso; e o Cardeal lhe contou como lhe acontecera com elle, e como lhe ficára de lhe enviar a letra acima dita. O Papa lhe reprehendera muito por isto, dizendo que tal cousa como aquella lhe não pertencia, sómente á Sé apostolica, nem era dado a elle nem a outro nenhum prometter nem ficar por tal caso.—«Senhor Santo Padre!» disse o Cardeal: «Eu não digo letra, mas se a cadeira de S. Pedro fôra minha eu lh'a deixára e déra de boa mente por escapar de suas mãos; que se vós vireis sobre vós um cavalleiro, tão forte e tão espantoso como elle é, ter-vos uma mão no cabeção, e outra alçada para vos cortar a cabeça, e o seu cavallo não menos alvoraçado, ora com uma mão ora com outra cavando a terra, parecendo que já me fazia a cova, vós dereis a letra e o Papado por escapardes da morte; e portanto me não deveis de culpar.» Então lhe outorgou o Papa a letra na maneira que o Cardeal quiz, e mandou-a a El-Rei antes dos quatro mezes. E El-Rei lhe mandou seu sobrinho mui honradamente como compria dando-lhe muito. E por causa disto foi depois este Cardeal sempre tanto amigo d'El-Rei D. Affonso que todas as cousas que elle havia mister da Côrte lh'as fazia e acabava com o Papa.
E fêz El-Rei D. Affonso em quanto viveo arcebispos e bispos em sua terra quaes elle quiz; e a carta que lhe enviou o seu escudeiro mandou ao seu escrivão que assentasse e escrevesse no livro das Historias.
Ora torna a historia a El-Rei Ismar que veio a tomar Leiria.