Ao tempo que os Mouros a que em Arabigo chamam Miçamidas entraram por Espanha, e destruiram a Cidade de Sevilha na era do Senhor de mil cento quorenta e sete annos (1147) estava El-Rei D. Affonso em Coimbra havendo já oito annos que depois de alçado por Rei reinava, o qual havia muito que tinha grande vontade, e desejos de tomar a Villa de Santarem a uma, por della se fazer muita guerra, a toda sua terra, a outra por ser a milhor Villa do Reino, pela nobreza, e abastança de seu assento, que da parte do Oriente a vista dos homens não se póde fartar de ver a fermosura dos campos mui chãos, abastados de muito pão, correndo por elles o grande, e mui nomeado Rio do Tejo, esso mesmo ao Occidente, e ao meio dia desfallece a vista dos olhos em o ver espaçoso, e ao Norte contra os Montes, grande avondança de vinhas, e olivaes, pelo qual falando muitas vezes El-Rei D. Affonso em seu deleitoso, e abastado assento em todalas cousas, chamava-lhe Paraiso deleitoso; era El-Rei mui magoado, e todo penoso em seu coração por a ver em poder de Mouros, e não poder toma-la, com quanto trabalho já tomára sobre ella, porque a Villa não era tão grande de manter, nem defender, aos que dentro estavam, nem tão pequena, que se pudesse furtar de poucos, álem desto, era mui forte de muro, e torres, e barreira da parte do Occidente a que os Mouros chamam Alfão, porque parecia deste cabo cham, em respeito do outro cerco que é sobre barrocas mui altas, e da parte do Oriente fizeram os Mouros carretar tanta terra aos Christãos que tinham cativos, com que encheram de fundo acima, e fizeram um oiteiro de tal altura, que lhe puzeram os Mouros nome Alarfa, que quer dizer couza ingreme, e temerosa, porque lançavam por alli os que eram condenados por sentença á morte, e iam os corpos mortos ter ao fundo á ribeira do Tejo, e da parte do Sul por rezão da propriedade da terra esbarrondada que seubre chamavam Alfange, que em Portuguez soa quebrada, e não se podia por alli haver entrada ao lugar, se não por recaios, e da parte do Norte não menos está afortalezado, pela grande altura do Monte que é pedregoso, e aspero, pelo qual assi pela grande Fortaleza da Villa, que por nhuma maneira de engenhos se podia combater, como pelo grande percebimento de muito boa gente, e mantimentos que dentro havia, não podia El-Rei D. Affonso haver modo de a tomar, nem remedio para tolher a grande guerra, que já de gram tempo desta Villa se fazia a Coimbra, e a outros seus lugares.
Ajudava muito a Fortaleza da Villa, a defficuldade para se poder tomar a grandeza das aguas do Tejo, que por junto corre, porque quando lhe El-Rei punha guardas de uma parte, se passavam com seus gados para a outra, demais que estes campos eram tão cheos de pavez, e insoas, nem se podiam andar, se não por barcas em tempos certos: por onde a Villa era tão grave de filhar, que seu avô El-Rei D. Affonso de Castella nunca a pudera tomar, senão por fome, nem esto mesmo Cid Rei Mouro, nem Abderazaca que teve o senhorio della trinta e quatro annos, o que parecerá cousa muito de maravilhar quando se ouvir, que semilhante Villa foi tomada por El-Rei D. Affonso Anriques com tão pouca gente, e como quer que elle cuidasse muitas vezes em seu pensamento como a poderia tomar por força, ou por algum despercebimento, aquelles com que esta cousa comunicava, representavam-lhe sempre duvidas, de muito grande perigo, e receo.
CAPITULO XXVIII
Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de Santarem mandou lá a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que teve com os seus para ir sobre ella.
Duvidoso El-Rei D. Affonso Anriques nesta maneira de poder tomar a nobre Villa de Santarem, assi pelas duvidas que punham esses com que falava, como pela grande deficuldade que desse mesmo feito parecia, com todo seu grande animo, que sempre em Deos esperava, e a nhumas deficuldades se rendia, determinou toda via de trabalhar sobre esso, e fazendo treguas com os Mouros, por certo tempo, mandou D. Mem Moniz sabedor de todo este negocio, e conselho lá, para que visse, por qual parte, se podia a Villa furtar, e entrar mais descançado, e seguramente, o qual indo lá, e assentando a tregua espiou todo mui bem, como homem mui avizado, e de grande engenho, e esforço que era, e da tornada falou com El-Rei em segredo fazendo-lhe o caso possivel, prometendo-lhe que elle seria o que fosse diante, e dos primeiros que no lugar entrassem, e poria a sua bandeira sobre o muro, e quebraria as fechaduras das portas, e assi o fez depois, porque era tão bom Cavalleiro, de sua pessoa, e para tanto, que para servir El-Rei, e cumprir sua Cavallaria, todalas cousas lhe pareciam mui ligeiras, e seguras de perigo.
El-Rei foi mui ledo com seu recado, e esforço, porque entendia, fazendo-se como D. Mem Moniz dizia, a Villa poderia tomar, não sendo primeiro descuberto, e tanto lhe pareceo que cumpria ser feito com grande segredo, que não quiz falar esta cousa aos de seu Conselho, em seu Paço, receando-se de poder ser em algum modo ouvido, antes foi um dia a folgar ao campo chamado Arnado, e alli apartou D. Lourenço Viegas, e D. Gonçalo de Souza, e D. Pero Paes seu Alferes, e outros, e contou-lhes todo seu intento, e proposito do que queria fazer, mandou-lhes que o tivessem em mui grande segredo sobpena de morte, em tal guiza, que ninguem o podesse entender, em quanto alli estivessem, nem á partida, e o conselho acabado, tornou-se El-Rei para o Paço, e vindo pela rua da figueira velha chegando á Praça disse uma velha regateira contra as outras: «Quereis vós saber, o que El-Rei com aquelles seus companheiros falou» disseram ellas: «Que falou?» Falou disse ella, «como fossem furtar Santarem». El-Rei que passando ouvio tudo, e vendo todos aquelles com que falara esta cousa ir comsigo diante sem nunca se apartarem delle, foi assi maravilhando-se até o Paço, e como descavalgou chamou os todos, e disse-lhes: «Não atentastes no que disse aquella velha, certo se algum de vós se apartára de mim, eu cuidava que fora descuberto por elle, e lhe mandara por ello cortar a cabeça, sem o merecer».
CAPITULO XXIX
Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella hora lhe foi revelado lá em França, onde estava.
Depois desto fez El-Rei prestes sómente os seus continuos de sua caza, e alguns poucos de Coimbra, com Gonçalo Gonçalves, e assi mantimentos que lhes abastassem, e ante que partisse foi-se ao Moesteiro de Santa Cruz a falar com aquelle devoto homem Prior do Moesteiro em que elle tinha grande e singular devação, e encomendou-lhe sua alma, e seu estado, assi como houvesse de partir deste mundo, dizendo-lhe todo o que tinha ordenado para ir fazer, e quando havia de ser, encomendando-lhe muito afincadamente que naquelle dia com seus amigos rogasse a Deos de vontade que o quizesse ajudar naquelle feito a que iam por seu serviço, e que esta couza tivesse em grande segredo. Então se partio El-Rei uma segunda feira não sabendo ninguem para onde iam; salvo aquelles a que o comunicara, e levaram o caminho tão revessado, e encuberto que os Mouros não houveram novas delles, e vieram aquelle dia poer as tendas em Alfasar, esta foi a sua primeira jornada, ao seguinte dia partiram, e foram dormir a Codornolos, e dali mandou El-Rei a Martim Mohaz que fosse dizer aos Mouros de Santarem que elle levantava a tregua da li em diante, e que a paz dantre si, e elles, fosse quebrada até tres dias, que segundo costume daquelle tempo, cada um podia engeitar a tregua a seu imigo quando lhe aprovesse, com tanto que lho fizesse primeiro saber. Martim Mohaz foi, e depois de comprir o mandado que levava, tornou á quarta feira a Aldeguas, onde El-Rei estava, o qual partio da li, e indo pela serra Dalvardos acertou-se que D. Pedro irmão bastardo del-Rei, que fora já em França, ia falando com elle dos muitos milagres, que naquella terra Deos fazia pelo Abbade S. Bernaldo que então era vivo, e como lhe Deos outorgava toda couza que lhe pedia.
Então El-Rei movido a devação pelas couzas que lhe seu irmão assi contava, disse: «Eu á honra, e louvor de Deos, prometo que se me elle Santarem quizer dar, por sua piedade, e pelos rogos do Bemaventurado S. Bernaldo, que vós dizeis, e eu lhe dê toda esta terra para a sua Ordem quanta vejo daqui até o mar, e que faça um Moesteiro em que Frades da sua Ordem vivam a serviço de Deos, e porque ella seja mais acrecentada». E segundo conta a Lenda de S. Bernaldo, tanto que El-Rei fez este voto, logo lhe a elle foi revelado lá em França, onde estava esta promessa del-Rei, e como havia de tomar Santarem aos Mouros, e em como aquelle Moesteiro que El-Rei prometera de fazer seria mui nobre, e abastado de todalas couzas, segundo depois foi, e é agora um dos grandes, e ricos Moesteiros da sua Ordem que ha na Christandade.