Tornou-se El-Rei, e o Ifante com grande vencimento, e prazer de todos os seus, e acháram no Arraial dos Mouros grandes despojos de ouro e prata, e tendas armadas, cavallos, e camellos, e outras muitas cousas com pressa da peleija deixadas. E com todo esto, e muitos Mouros cativos, entráram na Villa mui ledos, dando muitas graças e louvores a N. Senhor. Estos Mouros, que assi iam fugindo com quanto iam desbaratados, porém por ainda ficarem mui muitos de tanta multidão foram poer arraial acerca Dalanquer, e tiveram-na cercada alguns dias, combatendo-a rijamente sem lhe poderem empecer, e depois se alçaram dali, e foram-se a Aruda, e destruiram-na toda por terra, e dali se foram cercar Torres Vedras, e estiveram sobre ella onze dias, e vendo que a não podiam tomar, houveram Conselho de se ir volta de sua terra, achando que eram dos seus muitos mortos, e perdidos, e assi muitas riquezas que trouxeram, e então se partiram seu caminho, e passado o Tejo morreo o seu grande Emperador Almiramolim das muitas feridas que houve na batalha.
CAPITULO LVIII
Como cazou Dona Tareja, filha del-Rei D. Affonso Anriques a derradeira, com D. Felippe Conde de Frandes.
Despois que a batalha assi foi feita, El-Rei D. Affonso Anriques esteve alguns dias em Santarem, partio se para Coimbra levando comsigo o Infante D. Sancho seu filho, e como quer que já tenhamos dito, juntamente que El-Rei D. Affonso teve tres filhas, e que uma dellas cazara com El-Rei D. Fernando de Lião, e outra com o Conde D. Reymon de Barcelona, e outra com D. Felippe Conde de Frandes, nesta era acima dita de mil e cento e oitenta e quatro annos, metendo-se antre o seu cazamento, e de suas Irmãs passante de vinte e cinco annos, em que parece, que ainda esta Dona Tareja não era nacida, ou havia pouco que nacera, mas como se veio tratar o seu cazamento, não achamos escrito cousa para dizer de certo, sómente que desta tornada del-Rei D. Affonso, de Santarem para Coimbra, mandou o Conde D. Felippe de Frandes, por Dona Tareja sua molher, e vieram por ella Cavalleiros, e Senhores muitos, e outra muito nobre gente, e bem luzida, e Náos mui bem guarnecidas, á Cidade do Porto, e tanto que El-Rei soube que elles hi eram, partio-se com sua filha para lá, levando comsigo desses grandes do Reino, e homens principais, e quando chegou os Senhores, e Cavalleiros, que vinham pela Ifante, sairam a El-Rei, e a ella de quem foram bem recebidos, e com muita honra agazalhados, perguntando-lhe El-Rei com muita afeição, e assi a Ifante por novas da saude, e disposição do Conde, e de seu estado, e depois desto entregou-lhes El-Rei sua filha muito honradamente, mandando com ella em outras Náos dos seus naturaes alguns Grandes do Reino, e pessoas principais, e asi Donas, e Donzellas de linhagem quantas compria, e esta Dona Tareja viveo com seu marido vinte e tres annos.
CAPITULO LIX
De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente escritas.
Vendo-me chegado haver de dar cabo aos mui nobres feitos del-Rei D. Affonso Anriques com sua morte, a qual nos bons sempre é temporam, por tarde que venha, tomo desso grande pezar, como se vivendo com elle o visse falecer. Tão conversado, e affeiçoado trazia o esprito na materia de suas excellencias! Depois de feito o cazamento acima dito, veio o nobre Rei adoecer logo ao anno seguinte, e faleceo dessa doença o Excellente Principe mui manhanimo igual a qualquer dos mui excellentes antigos em valentia de forças, e coração mui grande, nem que na Christandade houve outro, antes, nem depois delle mais temido dos Mouros, cujos mui notaveis feitos não é duvida acharem-se muito menos postos em escrito, do que foram por obra, ora fosse por culpa dos tempos, ora por mingoa dos Escritores, segundo em alguns passos dessa sua Estoria se pode assás comprehender, porque em ella se não faz menção de muitas cousas assinadas de sua pessoa, nem dos seus, assi como de D. Gualdino Paes, que foi Mestre do Templo de Christo, em Portugal, e fez o Castello de Thomar, e outras Fortalezas, e servio grandemente em seu tempo.
Teve este muito esforçado Rei, em suas excellentes cavallarias, como por ellas se mostra, o animoso fervor, e ardente esforço de Julio Cesar, e a segurança mui confiada de Publio Cipião Africano, em tanto gráo, que todo o que estava por fazer, cometia como se o tivesse já feito, e o que mui deficil se acha sendo tão activo. Era cheio de muita fé e devação, sem a qual toda cavallaria no Christão, é deslouvada, e ainda muitas vezes danoza, e com rezão mal preparada, pelo qual este mui virtuoso Rei, tendo tamanha occupação de guerras tão santas, e meritorias, contra os infieis, que assás bastavam para muito merecer ante Deos, não leixou por esso de fazer muitas Egrejas, e Moesteiros mui sumptuosos, dotados de muita renda, e ornamentos com muito serviço e acrescentamento do culto Divino, de que hoje em dia são principaes o Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra, e o Moesteiro de Alcobaça, leixando manifesto exemplo aos menos devotos, que occupação de servir a Deos em uma cousa, não tolhe por esso, mas antes dá graça e poder para muitas outras.
E em uma Chronica achei, que elle começou a Ordem de Santiago, e deu ao Esprital de Jerusalem oitenta mil dinheiros de ouro para se comprar herança, e tanta renda, porque désse cada dia a todos os enfermos de enfermaria mantimento de pão, e vinho, para que o metessem cada dia em orações, e satisfez outras muitas cousas de caridade, e devação, foi mui amado, e temido dos seus. Houve, e venceo em pessoa muito grandes batalhas, e afrontas de peleijas, segundo se achou com muito poucos contra muitos; desbaratou em pessoa dous Emperadores, um Christão, e outro Mouro, e vinte Reis Mouros, com grandes poderes, e gentes, sendo elle muito menos. Primeiramente em Val de vez, antre Monção, e Ponte de Lima, venceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador. Depois no Campo Dourique venceo cinco Reis Mouros, com infinda Mourama, e junto com Palmela venceo El-Rei de Badalhouce Mouro, vindo com grande poder. E em Santarem Albojaque Rei de Sevilha, e apoz esto, Almiramolim Emperador, que se dizia antre os Mouros Rei de Marrocos, que trazia treze Reis Mouros comsigo, com novecentos mil homens, como dito é, não contando outros vencimentos grandes, que houve de Lugares, e Fortalezas, que tomou a Mouros, muitas, e mui grandes, e fortes: primeiramente na Estremadura, Santarem, Lisboa, e todas outras Fortalezas della, desde Lisboa até Coimbra, em Alentejo, tomou Cezimbra, Palmela, Alcacer, Evora, Elvas, Cerpa, Moura, Beja, e outras Fortalezas muitas, mui fortes, e grandes.