Carmen tinha-se encontrado pouco com a condessa, a não ser no theatro, onde a crivava de olhares impertinentes, em plena e altiva indifferença da condessa. Carmen, irritada, não vivendo nas relações de ladies, não a encontrando, como nos sete metros do tombadilho do paquete, sob a acção dos seus largos gestos e das suas asperas ironias, desforrava-se á mesa de Clarence-Hotel, envolvendo indirectamente Rytmel em toda a sorte de allusões e de palavras causticas. A sua ultima tactica era instigar sempre Mr. Perny contra o official, arremessal-o contra todas as idéas, todas as opiniões de Rytmel; não sei se com a esperança perversa de um duello, se apenas pelo gosto de o vêr contrariado…
Um dia fallava-se da India. Rytmel dizia a transformação fecunda que a
Inglaterra lhe tinha feito. Uma grande risada interrompeu-o. Era Perny.
—Ri-se? disse Rytmel, levemente pallido.
—Rio-me? Estalo de riso, tenho apoplexias de riso. Que transformação fecunda fez a Inglaterra á India? A transformação da poesia, da imaginação, do sol, n'uma coisa chata, trivial e cheia de carvão. Eu estive na India, meus senhores. Sabem o que fizeram os transformadores inglezes? A traducção da India, poema mysterioso, na prosa mercantil do Morning Post. Na sombra dos pagodes põem fardos de pimenta; tratam a grande raça india, mãe do ideal, como cães irlandezes; fazem navegar no divino Ganges paquetes a tres schellings por cabeça; fazem beber ás bayaderas, pale ale, e ensinam-lhes o jogo do criket; abrem squares a gaz na floresta sagrada; e, sobre tudo isto, meus senhores, desthronam antigos reis, mysteriosos, e quasi de marfim, e substituem-n'os por sujeitos de suissas, crivados de dividas, rubros de porter, que quando não vão ser forçados em Botany-Bay, vão ser governadores da India! E quem faz tudo isto? Uma ilha feita metade de gelo e metade de rosbeef, habitada por piratas de collarinhos altos, odres de cerveja!
Captain Rytmel ergueu-se risonho, approximou-se de mim, e disse:
—Peço-lhe que no fim do jantar pergunte áquelle engraçado doido o seu logar, a sua hora e as suas armas.
E foi sentar-se serenamente. Eu, á sobremesa, affastei-me com Perny, e transmitti-lhe as palavras do meu amigo.
Perny riu, disse que estimava os inglezes, que apreciava os seus serviços na India, que tinha sido instigado por Carmen a contrariar Rytmel, que o achava um adoravel gentleman, que pedia das suas palavras as mais humildes desculpas, que o seu logar era por toda a parte, as suas armas quaesquer…
—Mas, dadas essas explicações, disse eu, nada temos que vêr com as armas…
—Ah! perdão; disse o francez, ha ainda uma pequena cousa: é que eu acho que o penteado de Captain Rytmel é profundamente offensivo do meu caracter e da dignidade da França. Isto é que exige reparação.