—Então! elle está curado, e bom n'um mez. A condessa deve partir dentro de quinze dias.
—Ao menos quero dizer-lhe adeus… um momento, um instante que seja! Não me póde impedir isto: não m'o impeça, não?
—De modo algum, prima. Eu mesmo lh'o facilito.
—E ella?
—Ella, minha prima? Entrei no quarto d'ella para a arrastar ao primeiro policeman que passasse. Sahi jurando que em toda a parte aquella mulher me havia de achar a seu lado para a defender e, se ella o quizesse, para a amar.
—Tem talvez rasão. É uma verdadeira mulher.
—É mais do que isso, minha prima… Se alguma vez a paixão se encarnou n'este mundo n'um aspecto divino foi n'aquella mulher. É a deusa da paixão. De resto tem a grande qualidade:—a logica.
Eu, na realidade, tomara por Carmen uma grande admiração! Eu, que na sua saude e na sua belleza nunca lhe dissera uma palavra galante, era agora nas suas horas de dôr e doença, o seu fiel cavalliere serviente. Vi-a convalescer sob os meus cuidados: D. Nicazio tinha ido para Sicilia. Sustentei os primeiros passos que ella deu no seu quarto, extremamente magra, com o olhar quebrado, uma transparencia morbida na physionomia, e a imaginação doente.
Começou logo a entregar-se a longas orações, a leituras piedosas. O seu intento era entrar n'um convento em Hespanha, e ali, matar o seu corpo na penitencia e na dôr. Passava agora os dias nas egrejas. Estava mudada nos seus habitos e nas suas maneiras. A sua belleza mesmo tomava uma expressão ascetica. Tinha-se verdadeiramente desligado do mundo. Ás vezes olhava-me, e dizia de repente, lembrando o convento:
—É triste! Aos vinte e oito annos!