—Foi talvez providencial o nosso encontro aqui, a esta hora, n'esta rua… É talvez a unica pessoa que Deus quer permittir que me proteja, que seja por mim. Tenho um parente a quem vou escrever immediatamente entregando-lhe este segredo. Receio que elle se não ache em Lisboa. Sendo assim, não sei de quem me confie. Se tiver no seu coração tanta misericordia e tanta bondade que queira valer-me, procure-me em minha casa, ámanhã, ás 11 horas.

E dando-me a sua morada em Lisboa, entrou outra vez no trem que partiu.

Singular commoção a que produziu em mim essa mulher de quem acabava de saber que tinha commetido um crime; sentia-me inclinado a ajoelhar-me aos seus pés dilacerados e adoral-a!

IV

No dia seguinte á hora assignada apresentei-me em casa da condessa.

Era um predio de um só andar, simples, branco, todo fechado. Abriu-se-me a porta da rua, appareceu-me um criado vestido de casaca azul com botões brancos, collete encarnado, calção curto. Era um homem velho, de cabellos brancos, polido e nedio como um embaixador, serio como uma estatua, penteado como um gentleman. Fallou-me em francez e conduziu-me.

As escadas eram pintadas e envernizadas de branco, luzidias como o peito engommado de uma camisa. Ao meio dos degraus corria um tapete de veludo passado em varetas de cobre reluzente. No patamar projectava-se da parede uma concha de alabastro, cheia de plantas de longas folhas, em cima das quaes gotejava a agua de uma pequena fonte. No alto da escada a mobilia era branca, as paredes forradas de verde, cobertas de molduras doiradas encerrando quadros a oleo. A luz, suave e alta, vinha atravez de vidros baços. Havia o ar sereno e o perfumado silencio de uma tranquillidade elegante e feliz. Não me parecia o palacio de um fidalgo, nem o palacete de um burguez, mas sim o ninho domestico de um poeta ou de um artista.

Levantou-se um reposteiro e entrei em uma sala forrada de coiro, circumdada de sophás e de poltronas com estofos de marroquim cravejado de aço, grandes vasos de porcelana e alguns bronzes, um dos quaes representava o busto da condessa, assignado e datado de Milão. Um dos espessos reposteiros que cobriam as portas estava corrido e deixava ver, no meio da casa proxima, que era um salão antigo, um piano de ebano volumoso e longo em cujo flanco se lia em grandes caracteres de prata o nome de Erard. Junto do piano, inclinado sobre um fauteuil, achava-se um violoncello defronte de uma estante de marfim. Sobre as chaminés de marmore havia alguns livros e vasos com flores. Os moveis estavam dispostos de maneira que parecia conversarem baixinho em coisas delicadas e intimas. Sentia-se que estava ali, domiciliada n'um aconchego feliz, uma existencia espirituosa e contente: percebia-se no ar e no aspecto das coisas, o vago prestigio do perfume, da harmonia, do calor, que as pessoas que ahi tivessem estado haviam derramado em volta de si, conversando, lendo, fazendo musica. Eu tinha levantado os olhos de um livro sobre a mesa do centro da sala, quando vi defronte de mim, ao fundo de um grande espelho, uma figura immovel, tectrica, espectral. Voltei-me rapidamente, e não pude reprimir um grito de pasmo e de terror. Era a condessa.

Horrivel transformação por que ella passára! Durante as poucas horas que haviam mediado entre esse momento e a ultima vez que a vira, a condessa de W… tinha envelhecido dez annos. Os olhos profundamente encovados haviam tomado uma expressão apagada e immovel; a carne tinha uma côr terrea e opaca; os musculos faciaes, contrahidos na mais violenta oppressão, davam-lhe ao rosto, transversalmente vincado por dois sulcos escuros, o aspecto de uma magreza extrema; os cabellos apanhados todos para traz, alizados e seguros n'um rolo sobre a nuca, avultavam-lhe o nariz afilado e despegavam-lhe do craneo as orelhas lividas, de uma saliencia rija e cadaverica.

Fez-me signal que a acompanhasse. Segui-a com a sensação enregelada de quem entra nos dominios da morte. Atravessámos uma sala e entrámos em um dos quartos d'ella. Apontou para um sophá e sentou-se ao meu lado, olhando para mim, impassivel.