—O conde?… interrogou ella, erguendo-se de subito e enxugando os olhos. Sim, tem rasão, eu ainda lhe não disse tudo… O homem que eu matei não é meu marido.

E, postando-se defronte de mim, fitou-me com um olhar hallucinado, e accrescentou com voz demudada e profunda:

—É o meu amante.

Em seguida ficou immovel, esperando as minhas palavras na postura de um reu que vae escutar a sentença da bôca de um juiz.

A sensação que experimentei ao ouvir essa confissão breve, sêcca, inesperada, foi a da surpreza primeiro, de uma instinctiva repulsão depois. Ergui-me machinalmente e dei alguns passos na casa. A condessa permanecia na mesma posição, n'uma insensibilidade que tanto podia ser a prostração do arrependimento como o cynismo da culpa. Eu estava surprehendido e revoltado. Aquella mimosa e pura estatua, á qual eu levantára quasi um altar no meu coração, assim repentinamente baqueada n'um lamaçal, causava-me horror. Poderia supportal-a criminosa; não podia consideral-a prostituida. Medi-a com um olhar em que senti dardejar o despreso que ella n'esse momento me inspirava, e depois de um silencio repassado de magoa:

—É horrivel isso!

Ella estremeceu, cerrou desfallecidamente os olhos e amparou-se vacillante ao espaldar de uma cadeira.

—Extranha talvez a lastima e o horror que me causa? insisti eu. É natural. Tendo ouvido que em Lisboa, a sociedade vê benevolamente essas quedas como incidentes triviaes da existencia domestica. Eu porém que sou um selvagem, eu que me criei no principio de que a fidelidade é no caracter de uma mulher um dever tão sagrado como a honra no caracter de um homem, eu protesto, em nome das unicas mulheres que a minha inexperiencia me tem permittido conhecer no mundo—em nome d'aquella que me gerou e em nome d'aquella que eu amo—contra similhante interpretação da liberdade de amar. Não comprehendo que cáia em tal erro uma pessoa limpa. O adulterio é uma indecencia e uma porcaria. Matar um homem em taes circumstancias, é mais do que faltar ferozmente ao respeito devido á inviolabilidade da vida humana; é faltar egualmente ao respeito da morte… É atirar um cadaver a um cano de esgoto… É tragico—e coisa ainda mais horrivel—é sujo…

Ella escutava-me em silencio, extatica, como hypnotisada pela minha instinctiva mas cruel grosseria.

De repente, sem uma exclamação, sem um grito, sem um gesto, caiu desamparadamente no chão, fulminada, inerte, como se estivesse morta.