Depois direi o destino que démos ao cadaver, e o fim que teve a condessa.
+A Confissão d'ella+
I
Parece-me ás vezes que tudo isto se passou n'uma vida distante como um romance escripto, que me causa saudades e dôr, ou uma velha confidencia de que a minha alma se lembra. Mas de repente a realidade cae arrebatadamente sobre mim, e creio que soffro mais então, por ter a consciencia de que não devia nunca ter deixado de soffrer. Foi bom que me determinasse a esta confissão. Contar uma dôr é consolal-a. Desde que me determinei a escrever estas confidencias, ha no meu peito um alivio e como um movimento de dôres crueis que desamparem os seus recantos.
O principio das minhas desgraças foi em Paris. Lá comecei a morrer. Lembra-me o dia, a hora, a côr da relva, a côr do meu vestido. Foi no fim do penultimo inverno, em maio. Elle estava tambem em Paris. Viamo-nos sempre. Ás vezes saíamos da cidade, iamos passar o dia a Fontainebleu, Vincennes, Bougival, para o campo. A primavera era serena e tepida. Já estavam floridos os lilazes. Levavamos um cabazinho da India com fructa, n'um leito de folhas de alface. Riamos como noivos…
Havia tres mezes que estavamos em Paris: o conde—creio que o disse—estava na Escossia com lord Grenley caçando a raposa nas tapadas do principe de Beaufort.
Houve então um baile no Hotel de Ville, um d'esses bailes officiaes em que uma multidão de praça publica se acotovella sob os lustres, brutalmente. Tinha eu acabado de dançar uma walsa com um coronel austriaco, quando a viscondessa de L…, que vivia então em Paris, veiu a mim, toda risonha:
—Conheces este nome: miss Shorn?
—Não. Uma americana?
—Uma irlandeza. Uma maravilha, O prefeito dançou com ella; a condessa Waleuska beijou-a na testa, Gustavo Doré prometteu-lhe um desenho. Vae ser apresentada nas Tulherias. No fim, queres que te diga? Acho-a insignificante. Bonitos cabellos, sim. Não se falla n'outra cousa! Mas tu deves conhecel-a…