—É a amiga intima de minha irmã.
Fomos dançar. Era uma quadrilha. Pareceu-me triste.
Os movimentos da dança lembravam-me as cerimonias d'um culto. O meu ramo ficou espalhado pelo chão. N'esse instante, sem saber porquê, detestei Paris, o ruido, o imperio; desejei as sombras de Cintra, os retiros melancolicos de Bellas, cheios dos murmurios da agua.
Quiz sair. N'uma das ultimas salas uma mulher alta, loira, tomava das mãos d'um velho extremamente magro e distincto a sua sortie de bal.
Captain Rytmel, que me dava o braço, inclinou-se ao passar junto d'ella, e fallando baixo para mim:
—Miss Shorn! disse elle.
Era realmente linda. Grandes cabellos loiros, fortes, luminosos; os olhos largos, intelligentes, serios; um corpo perfeito.
N'essa noite chorei. No meu quarto as luzes e o fogão estavam accesos. Entrei, fui ao espelho precipitadamente. Deixei cair dos hombros o burnous. Ergui a cabeça, olhei a medo. A minha imagem apparecia ao fundo do quadro n'um vapor luminoso. Achei-me feia. Olhei mais. Tinha os braços nús, a cabeça erguida em plena luz. Lentamente a consciencia de que eu estava linda assim, penetrou-me, encheu-me de alegria. É tão bom ser linda!
D'ali a dois dias houve uma revista militar no campo de Longchamps. Captain Rytmel acompanhou-me. Eu tinha um logar na tribuna do Jockey. Havia uma enorme multidão. Estava a imperatriz, a córte, a diplomacia;—a tribuna resplandecia de fardas, de joias, de plumas, de reflexos de seda. As musicas, os clarins, o rufar altivo dos tambores, o surdo ruído dos batalhões em marcha, o luzir das bayonetas, as vozes de commando, o galopar dos cavallos, o brilho dos capacetes, o ceu resplandecente, como um largo pavilhão azul, tudo fazia palpitar, dava extranhos sentimentos de guerra e de gloria. E todo o corpo estremecia quando aquellas poderosas massas passavam gritando:
—Viva o imperador!