Não me atrevia a beijar uma creança; olhava-a com uma ternura ineffavel, ia a tomal-a nos braços, mas dizia commigo: «Deixa esse pobre anjinho, não és bastante pura para lhe tocar!»
Devo dizer tudo. Córava diante do meu cocheiro! Sorria-lhe com o maior carinho: temia a todo o momento uma má resposta, uma audacia, uma palavra accusadora. Quando eu entrava para a carruagem, e elle se erguia respeitosamente, eu ficava tão satisfeita d'aquella prova de attenção, que tinha vontade de o abraçar…
Acha odioso, não?
Defino o meu estado por uma palavra precisa e terrivel: quando meu marido me apertava expansivamente a mão, eu soffria tanto como se o outro me atraiçoasse!
Ai de mim! Quantas vezes quiz eu consolar o meu orgulho, pensando nas glorias dramaticas do soffrimento e do martyrio! Quantas vezes me comparei ás figuras lyricas da paixão, que contam as legendas da sua dôr ao ruido das orchestras, á luz das rampas, e que são Traviata, Lucia, Elvira, Amelia, Margarida, Julietta, Desdemona! Ai de mim! mas onde estavam os meus castellos, os meus pagens, e o ruido das minhas cavalgadas? Uma pobre creatura que vive da existencia do Chiado, que veste na Aline, que glorificações pode dar á sua paixão?
E depois é cruel, e é forçoso dizel-o: ha sempre um momento em que uma mulher pergunta a si mesma se realmente são as grandes qualidades moraes do seu amante que a dominaram. Porque então haveria justificações. E ha uma profunda humilhação em nossa consciencia quando nos chegamos a convencer de que, se amamos um homem, não foi só a nobreza das suas idéas e o ideal dos seus sentimentos que nos dominaram, mas um não sei quê, em que entra talvez a côr do seu cabello e o nó da sua gravata. Sejamos francas; para que havemos de disfarçar a pequenez estreita das nossas inclinações? Para que havemos de colorir de ideal a origem vulgar das nossas preferencias? Não quero dizer que as elevações moraes não sejam um auxiliar poderoso á sympathia instinctiva; mas o que na realidade nos domina é o exterior de um homem. Que todas as que lerem estas confidencias dolorosas se consultem no silencio do seu coração e digam o que determinou n'ellas a sensação: se foi o caracter ou se foi a physionomia. E as que forem francas dirão que na sua vida influiu talvez mais a côr de um frack, do que a elevação de um espirito.
Sim, digo-o, francamente, d'aqui d'este canto do mundo, em que o ruido das cousas tem o som ôco da tampa de um esquife: os desvarios do coração em nós outras, nada os absolve, quasi nada os explica.
Fui nova; tive, como todas, as minhas horas de tedio assaltadas de chimeras; tive os meus romances intimos, que nasciam, soffriam, morriam entre duas flores do meu bordado. Creei aventuras, dramas apaixonados e fugas dramaticas, aconchegadamente encolhida na minha poltrona, ao canto do fogão.
Conheci mais tarde muitos caracteres femininos e a historia de muitas sensibilidades. Experimentei eu tambem os sobresaltos da paixão—e nunca vi, nunca soube que estas imaginações, que estas attracções nascessem de uma verdade da natureza, da logica das circumstancias, da irreparavel acção do coração. Vi sempre que saíam de um pequeno mundo ephemero, romantico, litterario, ficticio, que habita no cerebro de todas as mulheres.
Vejo-o d'aqui a sorrir… Não se admire de me ver fallar assim. Lembra-se d'aquellas conversações tão intimas e tão sérias na rua de…? Lembra-se do terraço de Clarence-Hotel, em Malta, quando a lua silenciosa cobria o mar? Não se recorda das minhas idéas então e d'aquellas imaginações que eu denominava gloriosamente os meus systemas? Não se lembra que me chammava então philosopho loiro? O philosopho sentiu, chorou, soffreu, teve por isso o melhor estudo. Que maior ensino que as lagrimas? A dôr é uma verdade eterna, que fica, emquanto as theorias passam. Não imagina o que tenho aprendido da vida desde que sou desgraçada! Não imagina quantas idéas rectas e precisas saem das incoherencias do pranto!