… Desde esse momento fiquei n'um terror. Se elle morresse? Meu Deus, por que? Não se dá opio ás creanças, aos doentes? não é elle a clemente pacificação das dôres? Não havia perigo. Quando acordasse eu seria tão sua amiga, tão terna com elle, para me absolver d'aquella aventura imprudente! Ainda que seja culpado, amal-o-hei! pensava eu. Pobre d'elle! Não lhe bastava ter de dormir assim forçadamente n'um somno pesado e cruel? Amal-o-hia, culpado. Trahida, amal-o-hia ainda!

Elle entretanto estava calado, no sophá, com a cabeça encostada. De repente pareceu-me vel-o empallidecer, ter uma ancia, sorrir. Não sei o que houve então. Não me lembra se fallámos, se elle adormeceu brandamente, se alguma convulsão o tomou. De nada me lembro.

Achei-me ajoelhada ao pé d'elle. Devia ser meia noite. Estava immovel, deitado no sophá. Tinham passado duas horas. Senti-o frio, via-o livido, não me attrevia a chamar Betty. Dei alguns passos pelo quarto em uma distracção idiota. Cobri-o com uma manta.

—Vae accordar dizia eu machinalmente. Compuz-lhe os cabellos ligeiramente desmanchados. De repente a idéa da morte appareceu-me nitida, e pavorosa. Estava morto! Senti como o fim de todas as cousas. Mas chamei-o, chamei-o brandamente, e com doçura…

—Rytmel! Rytmel!

E andava nos bicos dos pés para o não acordar! Subitamente estaquei, olhei-o ávidamente, precipitei-me sobre o corpo d'elle, envolvi-o, gritando suffocada:

—Rytmel! Rytmel!

Ergui-o: a hallucinação dava-me uma força cruel. A cabeça pendeu-lhe inanimada. Desapertei-lhe a gravata. Amparei-o nos braços, e n'esse momento senti o volume, a saliencia que na sua casaca fazia a carteira. Veiu-me a idéa das cartas. Tudo tinha sido pelo desejo de as lêr. Tirei-lhe a casaca; era difficil; os seus musculos estavam hirtos. Junto com a carteira havia outros papeis e um masso de notas de banco. Ao tomal-os, os papeis e as cartas espalharam-se no chão. Apanhei-as, apertei-as na gravata branca e metti tudo no bolso.

Isto tinha sido feito convulsivamente, inconscientemente. Dei com os olhos em Rytmel. Pela primeira vez via contracção mortal do seu rosto. Chamei-o, fallei-lhe! Estava frenetica! Porque não queria elle acordar? Empurrei-o, irritei-me com elle. Porque estava assim, porque me fazia chorar? Tinha vontade de lhe bater, de lhe fazer mal.

—Acorda! acorda!